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Blog do Henrique Szklo

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Por que você está culpando o Fernandinho por sua infelicidade?

Henrique Szklo

10/07/2018 04h00

Crédito: REUTERS/Gleb Garanich

O futebol é o gatilho de um fenômeno social de alta octanagem. E quando acontece a Copa do Mundo, então, o planeta entra num estado de frenesi incontrolável. Um orgasmo coletivo. O mundo para pra assistir a Copa. Todos se transformam em torcedores desesperados e implacáveis, ufanistas, esquecendo suas mazelas diárias em troca do sonho de ser campeões do mundo.

Inclusive aquelas pessoas que não acompanham futebol no dia a dia. Se ganhamos o mundo é belo, a vida merece ser vivida e os políticos não são tão miseráveis assim. Mas se perdemos… bem, você sabe exatamente o que acontece quando perdemos.

Pense friamente: o que de fato nos afeta se a Seleção ganha ou perde? Sinceramente. O que muda em nossa vida? Qual é a razão de tanta frustração ou euforia? A não ser que você tenha apostado uma grana preta na vitória da Seleção, não há porque ficar emocional e psicologicamente afetado. O sofrimento, neste caso, é culpa de uma entidade virtual que nos acompanha durante nossas vidas.

O Embaixador Sensorial me representa

Isso tudo acontece, em minha opinião, graças ao que chamo de Embaixador Sensorial, que nada mais é do que aquele indivíduo ou grupo com o qual de alguma forma nos identificamos e que nos representa em qualquer tipo de atividade. Suas atitudes, posturas, filosofias, realizações, vitórias e derrotas se projetam sobre nós como se nossas fossem. Sombras gigantescas que nos cobrem e nos protegem do sol, mas também, em outras situações, nos privam de sua luz e calor. Sombras heroínas ou vilãs, dependendo da circunstância.

Vamos seguir no exemplo da Copa. Na medida em que um representante do meu grupo vence alguma competição, a reação instantânea é a de que a vitória também é minha. A seleção do meu país ganhar uma Copa do Mundo, faz com que "eu" seja reconhecido como Campeão do Mundo por bilhões de pessoas, mesmo sem ter feito absolutamente nada para que isso acontecesse. Não é à toa que eu vou amar os jogadores deste time para o resto da minha vida, a não ser que ele esteja no time que perder a Copa do Mundo seguinte.

E vou odiar aquele que perdeu o pênalti na final e me fez perder os bilhões e bilhões de admiradores aos quais eu tinha todo o direito. "Nós não podíamos ter perdido aquele gol", "nós ganhamos mais campeonatos que vocês", "nós temos a melhor média de gols", "nós jogamos melhor que todo mundo" dizem torcedores bissextos que jamais entraram em um campo de futebol e sequer foram apresentados pessoalmente a uma bola. Mas é quando "nós perdemos" que o bicho pega. Se bem, que desta vez a tristeza nem foi tão grande. Afinal, "lutamos até o fim e caímos de pé".

Mas o Embaixador Sensorial não se manifesta apenas quando nossas paixões entram em campo. De repente ligamos a TV e aparece uma luta de MMA. Não conhecemos nenhum dos lutadores. Mesmo assim, em pouco tempo já estaremos torcendo por um dos dois. O mesmo acontece com um ator que concorre ao Oscar e até mesmo pelo sucesso ou fracasso de alguém que você nem conhece pessoalmente. Se um brasileiro, que você nunca ouviu falar, ganhar um campeonato de cara ou coroa, não há como evitar uma ponta de orgulho.

Nunca ligamos para o surf, mas se um brasileiro for campeão mundial, passaremos a admirá-lo e a prestar atenção em sua vida, acompanhar suas atividades, segui-lo nas redes sociais. Até ontem ele era um ninguém, um zé-mané qualquer. Agora é o Grande Fulano, campeão mundial de surf.

É claro que a vitória ou derrota do surfista não provoca nem de perto as emoções relacionadas à nossa seleção, mas em muitas medidas, o Embaixador Sensorial, além de nos representar, mexe com nossa autoestima, fortalece a percepção relacionada à nossa visão de mundo, ao nosso grupo, à nossa turma, à nossa tribo, etc. O problema é que muita gente se abstém de viver plenamente para deixar que seus Embaixadores Sensoriais vivam por elas. Não há riscos, não há apostas.

Qualquer realização pode despertar nosso orgulho ou decepção em razão do bom ou mau exemplo de nossos Embaixadores Sensoriais: invenção de algo relevante, heroísmo, manifestação artística, crime, mico, etc. E os grupos são os mais diversos. País, profissão, orientação política, família.

Explicando o sofrimento

Nascemos, crescemos, vivemos e morremos desejando praticamente uma coisa: sermos aprovados como indivíduos, ou, como se costumou dizer por aí, sermos amados. Está em nosso sistema operacional, portanto, vem de fábrica. Nosso genoma nos obriga a viver em grupo, portanto este é um desejo diretamente relacionado ao convívio social. Precisamos dos outros para que possam nos amar, da mesma forma que os outros precisam de nós pela mesma razão. Sem esta aprovação, corremos o risco de uma grave ruptura psicológica e emocional.

Conheça os Hormônios Disciplinares*

Preste atenção: quando passamos por uma situação em que as pessoas à nossa volta nos criticam ou demonstram insatisfação conosco ou com o que dizemos e fazemos, sentimos um desconforto físico claramente perceptível, uma descarga do Hormônio Disciplinar Você é um Idiota!*. O oposto também acontece. Todas as nossas escolhas de vida, das importantes às prosaicas, têm como objetivo final o máximo de aprovação dos outros para que assim consigamos ampliar nossa possibilidade de nos sentirmos bem, recebendo constantes doses do outro Hormônio Disciplinar: o Parabéns a Você!*.

O que é o amor, além de uma imensa aprovação? E o que é o ódio, além de uma reprovação desmesurada? É claro que geralmente nós buscamos a aprovação de quem nós admiramos de alguma forma. Claro, esta pessoa, ao nosso ver, possui credibilidade para definir quem é legal e quem não é. Daí a nossa admiração por ela. Se ela gostar da gente, ou seja, se formos aprovados por ela, significa que estamos no caminho "certo" em nossa vida. A satisfação que sentimos neste momento é fruto do Parabéns a Você! que confirma quimicamente a nossa assertividade.

Inversamente, o incômodo que sentimos quando não recebemos estas aprovações é fruto de uma descarga de Você é um Idiota! que nos pune por ter feito alguma coisa de errado, razão pela qual fomos devidamente reprovados.

A aprovação em massa também é um desejo corrente nos seres humanos. Pessoas que você nem conhece aprovam você. Em geral, isso traz um sentimento de satisfação e regozijo. Uma verdadeira enxurrada de Parabéns a você!. É o caso das celebridades.

Moda é um jeito de conquistarmos aprovação sem precisar batalhar por ela. Quem está na moda está instantaneamente aprovado, pelo menos para o grupo de pessoas que dá importância àquela moda específica.

Basicamente, julgamos todo mundo o tempo todo porque temos uma ferramenta biológica para saber se os indivíduos que encontramos de alguma forma podem pertencer ao nosso grupo social, em alguma medida, para que possamos decidir se vamos nos aproximar ou nos afastar deles. O efeito colateral desta ferramenta é o desenvolvimento do esporte mais popular do mundo: a fofoca.

Competindo pela aprovação

A competitividade é uma característica oriunda de nossa necessidade de sobrevivência. Se eu vencer ou for melhor do que os outros em qualquer disputa, vou estar "certo", vou ser aprovado, portanto, meu organismo me dará a premiação hormonal correspondente: Parabéns a Você!. E o inverso se dá da mesma maneira. Daí o peso que o Embaixador Sensorial tem em nossas vidas. Assim como sua vitória é nossa vitória, sua derrota é nossa derrota. E como seres competitivos, precisamos desesperadamente de vitórias em nossas vidas. Não importa se nossas ou emprestadas.

Conclusão

Não torcemos pela Seleção Canarinho. Torcemos por nós mesmos. Pelo nosso prazer. Pela nossa realização pessoal. Pela esperança de sermos amados. A Seleção e todos os outros Embaixadores Sensoriais são apenas imagens projetadas de nossa fantasia de felicidade.

Não consigo evitar o sentimento de felicidade por acreditar que estou "certo" com relação ao Embaixador Sensorial. Sei que muita gente não concordará com minhas ideias, o que certamente me causará um grande desconforto, afinal, escrevo este blog, entre outras razões, para que eu possa receber doses semanais de Parabéns a você! Por favor, se tiver de fazer algum comentário, que seja elogioso.


*Segundo minha teoria NeuroCriatividade Subversiva, "Parabéns a Você!" e "Você é um Idiota" são Hormônios Disciplinares, responsáveis pelo controle de nosso comportamento. Se estamos "certos", ou seja, dentro dos padrões, recebemos uma dose do hormônio "Parabéns a Você", que vai nos proporcionar prazer e nos alertar de que estamos no caminho correto. Já, se estivermos "errados", ou seja, fora dos padrões, receberemos uma dose do hormônio "Você é um Idiota", que nos deixará claro que o caminho escolhido é equivocado.

Entenda melhor o que são Hormônios Disciplinares no vídeo abaixo

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!