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Ah, se os políticos usassem sua criatividade para o bem

Henrique Szklo

16/01/2018 04h00

Crédito: iStock

Tem gente que acha que os políticos não são corruptos. Nós é que somos certinhos demais. Já o meu amigo Rodriguez diz que o pior tipo de político é o honesto, porque, além de trouxa, é traidor da sua classe. E emenda dizendo que, se ganhar na loteria, vai comprar uma casa, um carro e uns dois ou três deputados. De qualquer maneira, o fenômeno relatado neste artigo não se restringe aos políticos brasileiros. Tampouco ouso afirmar, pois seria leviano de minha parte, que todos os políticos são assim. Mas não vamos aqui perder tempo analisando minorias. Afinal, ninguém liga pra elas.

Os políticos, em todo o mundo, sofrem do que eu chamo de CCB – Comportamento Criativo Bipolar. Se por um lado, são extremamente imaginativos e engenhosos, por outro demonstram uma incapacidade singular de gerar ideias minimamente criativas.

A classe política tem uma destreza quase sobrenatural para arregimentar fundos não oficiais e não declarados para desenvolvimento de suas atividades particulares com acúmulos financeiros crescentes e devidamente expatriados, ou seja, meter a mão, roubar mesmo. Sofisticados, tratam o dinheiro público com tanta intimidade e apreço que não encontram nenhum empecilho em se locupletar das formas mais argutas e admiráveis. É de dar inveja. Se usassem todo esse talento para o bem…

Mas isso é fácil de explicar. Não existe atividade profissional mais criativa que a do crime. Sempre seguidos de perto pelas autoridades, os criminosos (que às vezes são as próprias autoridades, diga-se) precisam estar sempre inovando, buscando novas formas de gerar receita, de não perder share de mercado, de estrangular a concorrência (literalmente), de garantir o retorno de seus investimentos, de eliminar jornalistas, policiais e juízes enxeridos. Enfim, de dar chapéu em todo e qualquer mecanismo de segurança que é criado diariamente para, inutilmente, tentar detê-los.

Políticos profissionais demonstram um desempenho verdadeiramente invejável na arte de bater carteiras, desviar verbas, apropriar-se do que não é seu, extorquir empresários que querem ser extorquidos, dilapidar patrimônios públicos, surrupiar democraticamente qualquer caraminguá que distraidamente cruzar pelo seu caminho. Afinal, roubar é que nem cozinhar: precisa ter uma boa mão. E o mais importante: eles deitam à noite em seu travesseiro de plumas de ganso geneticamente modificado e dormem feito crianças. Mas não as crianças que eles deixam sem escola, remédio e merenda, porque essas não dormem, claro.

Tudo isso é surpreendente, principalmente se comparado à total falta de criatividade na hora de explicar à população quando são pegos com uma mão na cumbuca. Com uma não. Com as duas. Tem também as mãos da mulher e dos filhos, das noras, do ex-cunhado, da babá, do cachorro (que afinal também é gente) e de quem mais estiver passando por ali naquela hora: o instalador da TV a cabo, o encanador e o entregador de pizza. Haja cumbuca. E haja pizza. Aliás, especificamente em nosso país, a classe política é uma das maiores produtoras de laranjas do mundo. Este é o Brasil que dá certo! Outra injustiça com nosso país é afirmar que aqui nada é organizado. E o crime, não conta?

Está na hora de inventar desculpas mais plausíveis

Voltando aos políticos, esta incapacidade de criar desculpas minimamente aceitáveis me decepciona um pouco. Como especialista em criatividade, posso afirmar que somos todos criativos e, quando vejo alguém não expressando todas as suas potencialidades no desenvolvimento de ideias inovadoras, me dá até uma certa tristeza. Que desperdício de talento.

Mas vamos ser justos. Esta falta absoluta de imaginação não é monopólio dos políticos. Não. Todos nós sofremos esta espécie de pane mental quando a nossa vaca vai pro brejo sem direito a um Habeas corpus: o gordo pego em flagrante com a geladeira aberta no meio da noite, o guarda que pega o motorista que estacionou na vaga de deficiente “só por um minutinho”, quando falamos mal de alguém e essa pessoa está escutando, quando você faz no elevador o que todo mundo faz no elevador e entra alguém antes que a tragédia se dissipe, batons e dólares encontrados na cueca e, claro, o caso clássico do cônjuge pego na cama com outro.

É sempre aquela mesma ladainha do “não é o que você está pensando”. E o mais pitoresco é que as pessoas dizem isso exatamente nas vezes em que a outra pessoa está absolutamente certa ao pensar o que está pensando. Mais do que ineficazes, ideias estúpidas como esta só pioram a situação, comprometendo sua credibilidade e sua cara-de-pau.

Não, pessoal, por favor, vamos botar a cabeça pra funcionar. Vamos desenvolver nossa criatividade. Não é possível que a gente não consiga criar nada que convença o outro de que a sua pataquada tem uma explicação sensata, verossímil, um objetivo nobilíssimo ou que, pelo menos, provoque uma dúvida razoável. Em qualquer tribunal do mundo, isso já será suficiente para ser inocentado. Sim, você pode. Afinal, no Brasil o crime não é roubar, é ser pego.

Com relação aos políticos, estou pensando seriamente em criar um curso de desbloqueio criativo específico para esta nobre classe. Não da parte relativa à pilhagem sistêmica, que nesta matéria eles tem mestrado e doutorado, mas com relação à criação de desculpas que não sejam tão esfarrapadas, quase desrespeitosas com a população. Sim, porque o povo merece mais respeito. Merece que se valorize sua inteligência com argumentos sólidos, críveis e, principalmente, de difícil averiguação.

Tenho certeza de que um curso destes faria imenso sucesso em todo mundo. Poderia se chamar “Democracia? Hahaha”.

O público é imenso, já que hoje em dia os políticos brasileiros estão saindo pelo ladrão. Já estou enxergando o roteiro das aulas: como justificar a mudança de opinião sobre as coisas como se fosse resultado de reflexão profunda? Como mudar de lado parecer uma tomada de consciência? Como dizer uma coisa hoje e outra amanhã sem parecer um canalha? Como justificar o passado negro, transformando-o em redenção? Como invalidar documentos assinados em cartório? Como negar vídeos, fotos e sons? Como transformar gatunagem pura e simples em perseguição política? Como meter a mão no dinheiro público de segunda à sábado e ir à igreja pedir proteção a deus aos domingos? Como ser financiado por empresas e aprovar leis que as favoreçam parecer coincidência? Como negar que conhece alguém, mesmo que este alguém seja a sua mãe?

Assunto é o que não vai faltar. Já sei até como começar: gostaria de roubar um pouco do seu tempo…

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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