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Blog do Henrique Szklo

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"Honesting", ou a difícil arte de ser honesto consigo mesmo

Henrique Szklo

17/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Uma das arestas mais afiadas de nosso comportamento, especialista em espetar a alma, é nossa propensão histórica ao autoengano. Conscientemente ou não, desenvolvemos uma feroz resistência ao óbvio que se nos apresenta diariamente. E independentemente da obviedade, a simples proposição de uma reflexão honesta sobre nós mesmos parece quase uma ofensa.

A negação taxativa de nossos assim chamados pecados nos dão, certamente, um pequeno e fugaz conforto, ou, pelo menos, evitam mais desconforto do que admitimos sentir. Assumir nossos assuntos internos de forma implacável e honesta é mais difícil do que respirar embaixo d’água. Parece tão impossível que nem tentamos, confirmando equivocadamente a impossibilidade.

O medo é tremendo. Parece que se admitirmos nossas imperfeições estaremos municiando um adversário cruel para que ele possa meter uma bala de prata em nossa testa cheia de boas intenções. Isso não podemos permitir.

O problema principal, provavelmente, é o temor de descobrirmos que não somos exatamente aquelas boas pessoas que gostaríamos de ser, pelo menos do ponto de vista socialmente aceitável. A disparidade entre o que se espera de um ser civilizado e o que somos de verdade é, de fato, profunda e desesperadora.

Erramos muito mais do que acertamos. Mas o que é errar, diria o filósofo? O erro está intimamente relacionado aos padrões vigentes. Atenção para a palavra “vigentes”. Os padrões não são cristalizados. Não são universais. Não existe certo absoluto nem errado universal. Eu sei, sou um relativista, mas analisando friamente, pensando 7 minutos, não há como negar que os conceitos se diferenciam em função dos grupos sociais: é certo ou errado comer cachorro? Ou vaca? Ou insetos?  Quando não, os padrões vão se transformando ao logo do tempo: já foi certo ter escravos. Já foi errado as mulheres dirigirem, votarem. Já foi certo matar pela honra e já foi errado se relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Certo e errado mudam conforme a época, os eventos e as circunstâncias históricas. Nós, pobres animais que precisam viver em grupo, estamos sempre tendo de nos adaptar a novas realidades, novas verdades e novas mentiras. O que precisamos fazer, então, é enterrarmos em nossos porões da repressão o que não é aceito e fingirmos que eles não existem mais. Só que como disse-o bem João Cabral de Melo Neto em seu poema “Uma Faca Só Lâmina'', existem facas internas que nos espetam constantemente, nos lembrando do que somos, do que desejamos e do que fizemos. Elas estão lá e precisamos desesperadamente descobrir alguma forma de conseguir conviver com elas sem que nos provoquem hemorragias emocionais.

Somos o que somos, mas não podemos mostrar aos outros sob o risco de sermos expurgados de nossos grupos sociais. Pior, não queremos nem saber como realmente somos para sequer correr o risco. E como esse doloroso dilema se arrasta pela história da humanidade, não ouso apresentar aqui uma cura, uma solução, um elixir. Mas acredito que existe uma forma de administrar as lâminas que habitam nossa carne.

Chama-se honesting. A capacidade de olhar para nós mesmos e enxergarmos serenamente o que somos de verdade. Sem peninha. Sem mimimi. Sem ficar rolando no chão (é impossível não falar disso hoje). Não podemos de jeito nenhum passar a mão sobre nossos próprios cocurutos.

Luz acesa, franca, direta, ofuscante, de doer os olhos mesmo. Mas os olhos, acredite, se acostumam com a luz. As pupilas estão aí para isso. A dor inicial de ver a nossa face real, principalmente a feiura que tanto evitamos, diminui conforme vamos nos acostumando a ela. Mas não muito, é verdade.

E não confundamos, por favor, ser honesto consigo mesmo com falar a verdade, pois são coisas muito diferentes. Primeiro, “verdade” também é um conceito relativo, já que eu tenho a minha e você a sua. Honesting tem a ver com uma comunicação eminentemente interna. Com um fluxo copioso e de mão dupla de informações relacionadas às nossas crenças mais profundas. Ser honesto consigo mesmo é reconhecer e dialogar com sua essência de maneira abrangente, clara e despida de julgamento. E, a partir daí, aceitar quem você é.

Este não é um discurso de autoajuda. Aceitar não significa gostar nem se conformar ou achar bonito. Aceitar é entender. É reconhecer. Aceitar é não lutar contra e sim aprender a lidar com esse quasímodo que vive dentro de todos nós. Se o que te incomoda existe e está dentro de você, é melhor conhece-lo bem e mantê-lo sob vigilância. Ignorá-lo só vai deixa-lo mais forte e livre.

Existem muitas atividades e filosofias que prometem equilíbrio pessoal e que, na minha opinião, não têm condições de cumpri-lo. Qualquer técnica de autoconhecimento que não mexa com nosso sistema nervoso, que não cause, no mínimo, um frio na espinha, não é autoconhecimento. É autoengano. Uma sociedade hedonista não consegue evoluir porque a evolução está intrinsecamente ligada ao esforço, ao desafio, ao desconforto.

Se você insistir em manter seu lado bandido enterrado e escondido, vai transformar seu inconsciente num daqueles cemitérios indígenas que ficam sobre construções transformando-as em amaldiçoadas. A sua verdade, como lixo industrial, se enterrada envenena o solo, causando doenças e matando a vegetação.

É como achar que possamos conhecer uma cidade qualquer no Brasil ignorando suas favelas. Se você enxerga apenas a metade de si mesmo, jamais chegará ao equilíbrio. É preciso colocar pesos opostos e conflitantes em cada prato da balança. Só encontraremos equilíbrio na média entre bom e mau, feio e bonito, certo e errado, sujo e limpo.

Honesting não é um processo para quem busca o prazer e a paz imediata. É uma jornada em busca de si mesmo. E não existe diversão nesta jornada. Conhece a frase, no pain, no gain, não é? Honesting não serve para você se sentir melhor. Serve para você ser melhor. Ou pelo menos tentar ser. Como numa academia, só funciona se doer. Não tenho culpa se a viagem de autoconhecimento não é comercializada pela Vovó Stella (pra quem lembra). O praticante de honesting está mais para Borba Gato do que para Didi Wagner.

Do ponto de vista da criatividade, o honesting transcende a saúde emocional para se transformar numa potente ferramenta de sensibilização alheia e conexão com os outros. Principalmente na criatividade artística. Não se atinge corações e mentes sendo apenas competente.

Criar é mergulhar fundo em si mesmo e voltar para contar o que viu. Pode prestar atenção. Os maiores gênios da humanidade foram pessoas que seguiram este roteiro. Destemidos ou ignorantes, não importa, eram frequentadores assíduos de seus subterrâneos. Artistas precisam mostrar a alma, como se diz. E a alma, se é que existe, está lá. Artista só com técnica não move montanhas. Já um artista com alma e sem técnica, move. E quando um artista tem alma e técnica, cria montanhas onde quiser.

Eu não sei realmente se é de fato terapêutico fazer saltos ornamentais em nossas profundezas com muita frequência. Não sei mesmo. Só sei que faço sempre. Sou um adepto fiel do honesting. Além de não conseguir tirar as facas, eu ainda faço elas funcionarem como hélices. Sério. No fundo acho que o meu prazer neste processo é me sentir evoluindo, mesmo que seja apenas uma ilusão. Vamos por desta maneira: a ilusão de evolução me alimenta. Ser feliz ou não já é outra história.

Cada um que descubra qual é a sua. Como se sente melhor. Como quer viver. Talvez seja mesmo melhor achar que é uma boa pessoa, que é um cidadão de bem. Que não tem uma pista suja. Que frequentar a igreja e dar esmola aos pobres faça de você um campeão do mundo. Quem sabe? Até porque a sabedoria popular diz que a ignorância é uma bênção. E provavelmente é mesmo, se a sua passagem por aqui for só de passagem. Tenho um amigo que sempre diz: a maldição move. A benção relaxa. E para a minha maldição (ou bênção), eu gosto de me manter em movimento.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!