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Blog do Henrique Szklo

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Meus filhos me ensinaram a amar

Henrique Szklo

18/09/2018 04h00

Crédito: iStock

Para mim, ser um bom pai sempre foi mais do que um desejo, mas uma questão de honra. Principalmente naquela fase mais aguda, naqueles anos estratégicos em que se formam caráteres e se forjam personalidades. O esforço foi grande, os erros foram muitos, as dúvidas imensas, mas o amor me empurrou para lugares que eu nem sequer conhecia antes de ser pai.

Posso dizer hoje com tranquilidade que eu não conhecia o amor antes de conhecer meus filhos. Esse amor equivocado e imperfeito que nos move nas direções mais absurdas, que nos carrega às vezes contra a nossa vontade, mas que tem em sua essência uma carga tão profunda de conexão com outros seres humanos, que muitas vezes acaba por nos assustar, por nos encher de dúvidas, por nos arrastar na culpa, nos fazer questionar nossa própria capacidade de tomar decisões minimamente decentes.

Meus filhos me tiraram do isolamento, me inseriram na condição humana e me deram, e continuam dando, aulas de como se enxergar o mundo. Tenho a impressão que sofria de uma espécie de autismo, que me fazia enxergar apenas o meu mundo e só ele. De uma hora para outra precisei romper minha redoma e tentar incorporar primeiro um, depois dois outros indivíduos ao meu pequeno universo. Indivíduos barulhentos e com vontade própria. Porém, a simples existência destes dois novos cidadãos fez com que o universo se expandisse de forma tão surpreendente que eu nem fazia ideia de que existiam universos com este tamanho, com esta complexidade e beleza.

De repente tive de tirar os olhos do meu umbigo e olhar para o lado. Arrumei mais dois umbigos para cuidar. Tive de me preocupar em prestar atenção em alguém além de mim mesmo e não apenas naquele momento, mas com perspectiva de futuro, de construção de vida, de orientação, de exemplo. Apesar da imensa dificuldade em me oferecer desta maneira, o esforço era justificado pelo propósito: não permitir que nenhum deles se transformassem em um indivíduo escondido em sua própria redoma. Que eles conhecessem desde sempre o que é amar e ser amado. O que é ser respeitado em suas diferenças. O que é ter alguém com quem você pode contar em qualquer situação e não apenas naquelas em que todo mundo conta com todo mundo. Que não fossem tantas vezes julgados por suas preferências e modo de pensar. Que eles não quisessem ser bons pais por questões de honra e sim por serem boas pessoas –e que seriam bons pais de qualquer jeito. Que eles não fossem pais modelo, admirados no facebook, preocupados apenas com sua imagem e sim com as verdadeiras necessidades de seus filhos.

Bem, não sei se consegui eu mesmo ser este pai. Como todo mundo, não estudei para ter filhos e acabei tendo de aprender na marra. Acho que fui mais ou menos como o deus da bíblia: no primeiro testamento fui carrasco, exigente, nervoso, agressivo. Mas, em geral, não me arrependo deste comportamento. O papel dos filhos é testar para aprender. E testar em geral significa encher o saco. É preciso paciência e ponderação na criação de filhos. Mas às vezes um grito bem dado tem sua função.

Já no segundo testamento, virei paz e amor. Faz muito tempo que não repreendo meus filhos nem tento dar lições de vida ou de moral. São adultos e converso com eles como tal. Não brigo, não obrigo. Eles se transformaram em adultos conscientes, que pensam além das cercas, humanos, carinhosos, bem informados e, até onde posso ver, com uma bela visão de mundo. Não são perfeitos mas as suas imperfeições não me parecem comprometedoras, suspeito que sou em julgá-los. Não concordo com o que eles pensam em muitos aspectos, mas tenho um imenso orgulho em testemunhar que eles pensam, que pra mim é mil vezes mais importante do que concordar comigo.

Tenho orgulho, mas não sei muito bem se é orgulho deles ou de mim mesmo. Não sei o quanto do que eles são hoje é resultado direto ou indireto da minha influência, da minha dedicação e esforço. Não sei se realizei um bom trabalho resgatando a minha honra ou se apenas tive a sorte de conviver com duas pessoas que, a despeito da minha presença ou ausência, seriam de qualquer maneira seres humanos formidáveis.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!