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Vivemos num estado de criativicídio

Henrique Szklo

22/05/2018 04h00

Crédito: iStock

A criatividade brasileira está passando por uma crise sem precedentes. Se não fizermos alguma coisa para salvá-la, corremos o risco de perdê-la para sempre. Estão confundindo novo com cru, original com estranho, subversivo com caricato, criativo com excêntrico e simples com óbvio. É a vergonha alheia singrando pelos mares sedutores do senso comum. Sereias uniformizadas que enfeitiçam marinheiros ingênuos com seu canto cheio de chavões com promessas de conforto. Não se engane: criatividade é que nem água. Se não souber usar ela pode acabar

A criatividade e sua parente mais nova e exibida, a disrupção, não têm sossego. Recentemente assisti a uma palestra de um importante executivo de uma empresa imensa que, em meia hora, repetiu a palavra “disrupção” umas 30 vezes. Juro. Não estou exagerando. Ele estava. E o mais grave é que nada daquilo do que falava era de fato disruptivo. Eram apenas boas ideias.

Levar um serviço que já existia no analógico para o digital não é disrupção. A simples criação de um aplicativo não é disrupção. Disrupção foi a luz elétrica, Disrupção foi o iPod. Disrupção foi a internet. Disrupção é quebrar a sequência lógica de evolução de uma ideia, serviço ou produto. Disrupção é algo que surpreende pela falta de antecedentes indicativos do caminho tomado. É mudar o mundo de um jeito que era inimaginável até um tempo antes. Disrupção é mudar o comportamento da sociedade de forma radical.

Já a criatividade não é tão exigente. Precisa apenas provocar um “ah!” nas pessoas. Pode ser um pequeno “ah!” ou um grande “ah!”, não importa. Quando nos deparamos com a criatividade genuína para nós recebemos um lindo presente de nosso cérebro: uma boa carga de dopamina causada pela surpresa, originalidade e utilidade.

Os jovens se sentem muito criativos apenas porque estamos na era digital e eles nasceram nela. Se fosse assim, quem nasceu na época do amor livre iria viver em um orgasmo infinito. Sim, vivemos hoje a Renascença Digital, não há discussão. O que não quer dizer que todos os atores deste teatro mereçam a alcunha de criativos. Na verdade, muito poucos podem solicitar tal condição.

Criatividade é quebrar padrões estabelecidos, mas nem toda quebra de padrões é criatividade. Misturar um monte de porcarias no liquidificador e beber não é criatividade. É déficit cognitivo. Vestir uma roupa diferentona, pintar o cabelo de furta-cor, falar o que vier a cabeça só para causar, e outras tantas manifestações extravagantes, podem até ser consideradas criativas por algumas pessoas. E a elas eu dedico toda minha simpatia e desejo do fundo do coração que São Magaiver as proteja.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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