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Blog do Henrique Szklo

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O mundo globalizado e tecnológico está matando os clássicos

Henrique Szklo

07/08/2018 04h00

Crédito: iStock

Não existem mais clássicos no mundo das artes e do entretenimento. Na verdade não existem mais clássicos em praticamente nenhuma área de atividade humana. Deixa eu explicar melhor: os clássicos antigos permanecem e muitos deles permanecerão, mas de uns tempos para cá nenhum clássico nasceu e acho que não nascerá, pelo menos enquanto o mundo estiver funcionando da forma como funciona hoje.

A internet nos trouxe e nos traz tantas informações que nenhuma delas jamais conseguirá se destacar por mais do que alguns dias quando outras informações tomarão seu lugar e assim sucessivamente. Você é capaz de lembrar de uma música, um filme, um livro, uma propaganda, um carro, um produto ou qualquer coisa que se encaixe no conceito "clássico" nos últimos… 10 anos? Por mais estardalhaço que tenha feito, qualquer nova ideia tem sido tragada pela areia movediça teúda e manteúda pelo mundo digital.

O mundo precisa de nossa atenção. Antigamente, tempo era dinheiro. Agora são os likes. E para ter os likes em uma sociedade esquizofrênica só mesmo oferecendo cada vez mais esquizofrenia. Quando as informações não se espalhavam como hoje, as ideias que chamavam mais atenção não tinham concorrência por um bom período, porque naquela época as coisas também eram mais lentas. E por terem mais tempo no altar, era mais fácil se manter nos corações e mentes das pessoas. Quando chegava outro pretendente ao posto de clássico, o anterior já tinha solidificado suas bases e provavelmente não perderia seu lugar no olimpo da memória coletiva.

Mas e hoje, como fazer? Recebemos por meio das redes sociais um turbilhão de novas ideias todos os dias. Algumas muito boas, que em outros tempos até poderiam se transformar em clássicas, mas que no dia seguinte são olvidadas pois outro vórtice de ideias as sobrepujou. É como se fossem desenhos feitos na areia a beira-mar. A cada onda eles se apagam para dar espaço a outros. Nosso cérebro não tem capacidade de se impregnar de uma informação sem que haja um tempo mínimo de convivência, a não ser em caso de traumas, estes sim, se tornam memoráveis em pouquíssimo tempo.

Vivemos o que eu chamo de realidade líquida, onde as informações vazam por nossos dedos. Não conseguimos segurá-las por mais de alguns segundos. Pode ser que este fenômeno em particular seja "culpa" da tecnologia que a cada curtíssimo espaço de tempo (e cada vez mais condensado) lança alguma novidade pretensamente mais moderna e eficiente que a anterior, fazendo com que criemos uma expectativa similar com relação a todas as outras coisas, o que é, no mínimo, injusto.

Outra razão é que a medida que uma novidade é lançada e se torna bem-sucedida, a velocidade com que é copiada é tão impressionante que a original sequer tem tempo de curtir o status de criadora de uma ideia única no mercado, não conseguindo fixar esta posição no imaginário das pessoas. Em pouquíssimo tempo você encontra a mesma ideia com várias diferentes alternativas. Pouco tempo atrás, os mimetizadores eram conhecidos como imitações. Hoje são apenas versões.

É o fim do choque cultural

A diversidade, ironicamente, está morrendo aos poucos. O mundo globalizado está sufocando as diferentes culturas, produzindo uma massa uniforme e avessa ao divergente. A aldeia global se transformou em uma máquina opressora. Define o que é certo e o que é errado em todas as esquinas do mundo, independente das diferenças semeadas por cada civilização ao longo dos séculos. Resultado: tudo é muito parecido.

Como o número de idealistas diminui na medida oposta em que cresce o poder do capital, ninguém está muito a fim de dar tiros no escuro, se jogar do precipício ou encarar o diabo. O negócio é garantir a grana. Veja a Apple, por exemplo. Desde que morreu o alucinado do Steve Jobs, a empresa deixou de nos surpreender, mas hoje é a mais valiosa do planeta. Uma escolha cada vez mais comum. A indústria automobilística também. Todos os carros de todas as marcas parecem ser feitos pela mesma empresa, de tão parecidos que são. Os smartphones, todos com a mesma carinha. Moda, cultura, comportamento, tudo é mais do mesmo. Assim não vai surgir nenhum clássico nem que a vaca expectore.

Como surgiram os clássicos

Alguns clássicos, curiosamente, não foram reconhecidos na época em que apareceram para o público, levando anos para serem finalmente consagrados. Isso demonstra que a conexão com espaço e tempo é fundamental. Como exemplo, a série de TV original dos anos 60, Jornada nas Estrelas. A época não chamou muita atenção do público e foi cancelada após apenas 3 temporadas. Hoje é cultuada por milhões de fãs em todo o mundo.

Me parece que o assunto está relacionado à memória. Ou melhor, com a fixação de memória. Para se tornar um clássico, uma ideia precisa de tempo suficiente para conseguir alguma aderência em nosso cérebro. É como você ter um relacionamento amoroso por dia. Por melhores que sejam os parceiros que você encontre, nenhum vai conseguir se tornar marcante o suficiente para ser particularmente memorável. No caso da Jornada nas Estrelas, seu sucesso foi sendo construído ao longo dos anos já que, apesar de cancelada, passou a ser reprisada por muitos anos, construindo e fortalecendo a memória dos espectadores.

Acho mesmo impossível que surjam daqui pra frente ideias veramente inusitadas, diferentes, surpreendentes, atemporais e relevantes. Hoje, aquele que por alguma razão é eventualmente lembrado após alguns anos não recebe o título de clássico, mas de velho ou ultrapassado.

Aliás, talvez as únicas manifestações que cheguem mais perto da alcunha de clássicos nos dias de hoje são as séries televisivas. São anos e anos de exibição, suficientes para colar em nossas cabeças. Mesmo assim, não tenho certeza de que elas consigam a mesma força dos clássicos mais antigos. Breaking Bad pode ser considerado um clássico, não? Mas eu, particularmente, não sinto a mesma força e influência cultural de um Seinfeld, do próprio Jornada nas Estrelas ou até mesmo do Chaves.

Daqui alguns anos, Games of Thrones, Walking Dead e La Casa de Papel talvez estejam presentes somente em alguns fragmentos de nossa memória, já que estaremos apaixonados pelas séries que estiverem passando no momento. O amor nos tempos do instagram são assim: lânguidos. É por isso que tenho a suspeita de que o casamento como instituição terá o mesmo destino dos clássicos, mas isso é outra história.

O clipe "This is America", do Childist Gambino lançado há uns meses, para mim é uma obra prima. Em outros tempos estaria garantido em nosso inconsciente coletivo.  Lembraríamos dele e contaríamos aos nossos netos o rebuliço que aconteceu quando surgiu. Só que não vai acontecer. Ele já virou poeira. Já não tem muita importância. Já não mexe com nosso emocional. Mas quem não se  lembra do clipe do Aha!, Take on Me, de 1986? É genial? Não. Mas porque virou um clássico? Provavelmente porque utilizou um efeito muito inusitado para a época e não surgiu nada parecido por um longo tempo. Até o Thriller do Michael Jackson, este sim genial, se lançado hoje, causaria um bafafá mas seria engavetado em nossas memórias em pouco tempo e ninguém aprenderia a dançar como zumbi.

Mas a pergunta que fica é: será que nós precisamos mesmo dos clássicos? Será que precisamos guardar em nosso arcabouço emocional ideias e coisas que nos façam retornar no tempo e reviver nosso passado? Que a falta de ideias em estado sólido será na verdade um avanço em nossa evolução como espécie? Que nos fará finalmente capazes de viver apenas o momento, já que o futuro também será tão cheio de expectativas que para a nossa própria sanidade mental e emocional tenhamos de nos fixar apenas no presente absoluto? Se acontecer isso, acho legal. Um evento que certamente se transformará em um clássico na história da humanidade.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!