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Blog do Henrique Szklo

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Quando alguém morre, todo um universo é extinto

Henrique Szklo

15/03/2018 15h38

25.mai.2017 – Vereadora do PSOL Marielle Franco em seu gabinete, no Rio (Crédito: Rodrigo Chadí /Folhapress)

Preto, branco, rico, pobre, religioso, ateu, inteligente, ignorante, todos acumulam uma riqueza própria e profunda, fruto de uma experiência única, codificada e decodificada a partir de signos cognitivos, muito mais relevantes do que o simples julgamento de valores criado e cultuado pelo homem.

A morte é inevitável e necessária. Mesmo assim, me exaspero a cada finamento. E quanto mais jovem o universo, maior o meu desconsolo, mais larga a minha indignação com as arbitrárias leis da natureza.

Se o impacto do aniquilamento já é suficientemente brutal quando provocado por eventos aleatórios, quando um universo se apaga pela ação intencional de outro universo, fico aturdido com a ousadia de alguns em aniquilar uma rica história ainda por se contar. Em precipitar um universo cheio de informações e possibilidades rumo à inexistência.

A perversidade deste ato é tão desmedida, que suplanta de forma inequívoca a simples definição de crime. Em minha mente, adjetivos eivados de rancor se oferecem ao gosto do freguês: abjeto, hediondo, asqueroso, sórdido, torpe, repulsivo, obsceno… Não importa. Nada disso me redime. Não há como desabilitar um pecado.

Bebeto de Freitas morreu, Stephen Hawking morreu, Marielle Franco morreu. Universos de diferentes dimensões esvaziados por diferentes eventos: surpresa, inevitabilidade e covardia, respectivamente. A tragédia de universos famosos no mundo inteiro causa consternação generalizada, mas, foi o assassinato da jovem e combativa vereadora carioca que me machucou.

Eu não conhecia Marielle, por imperdoável ignorância de minha parte. Mas ao tomar conhecimento de seu assassinato e do motorista Anderson Pedro Gomes, imediatamente lembrei de quando tinha a idade deles. Consultei meu glossário mental e me desconsolei, como sempre, com a privação de experiências que uma morte prematura provoca. O quanto eles perderam. O quanto todos nós perdemos. Todo esforço e dedicação que os trouxeram até aqui.

Prostrado e impotente, sigo adiante, iludindo meu universo com a esperança frágil de que nunca serei vítima das iniquidades de universos obscuros e ignorantes de que estamos todos de alguma forma conectados. Indiferentes ao fato de que quando alguém extingue um universo, está criando buracos negros dentro de si mesmo.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!