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Blog do Henrique Szklo

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Somos todos BBBs

Henrique Szklo

13/03/2018 04h20

Imagem: Reprodução/Gshow

Quem não aprecia o “Big Brother Brasil'', exibido pela TV Globo, perde uma imensa oportunidade de se divertir e também de aprender. O programa, uma mistura de terapia de grupo, teste de admissão e zoológico, é uma espécie de espelho encantado de todos nós que estamos aqui confortavelmente do lado de fora.

O BBB é como uma rica ópera-bufa, com seus dramas baratos e clichês, que temos o privilégio de acompanhar em tempo real. Pessoas comuns, ao vivo, completamente nuas, nos oferendo argumentos irrefutáveis para execrar a raça humana. Como em todas as óperas, é preciso saber apreciar.

Acredito que muitos rejeitam o programa porque confundem o BBB com a qualidade das pessoas que dele participam. Uma confusão dupla, já que isso é uma clara demonstração de preconceito ou de soberba. Em que somos melhores do que eles? O Big Brother não é sobre os brothers ou as sisters que estão lá, mas sobre pessoas. Todas elas. Você incluído.

Calma, não se ofenda! Sim, você também está lá indiretamente, porque, até prova em contrário, és um ser humano. E nós, como espécie, compartilhamos mais “parecências'' do que diferenças. Temos todos os mecanismos, gatilhos, hormônios, humores e cérebros que, olhando a distância, podem parecer idênticos.

Somos todos iguais perante as leis da natureza

Existe uma máxima que diz que se lermos um livro sobre distúrbios psicológicos, nos identificaremos com todos. O que nos faz acreditar que somos doentes mentais ou que estes desvios nada mais são do que características que todos carregamos e que, em desajuste, nos tornam potenciais pacientes de terapeutas e/ou psiquiatras. Tudo parte de uma mesma estrutura de funcionamento de nosso cérebro diretamente ligada à nossa necessidade de sobrevivência.

Falando em sobrevivência, devo dizer que adoro programas da vida selvagem. Neles, posso testemunhar a natureza em seu estado puro. O funcionamento matemático do universo e suas engrenagens trabalhando de forma brutal e explícita, com sua vegetação e animais de comportamento eminentemente reativo.

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Acompanhar o Big Brother, como o NatGeo Wild ou Animal Planet, ajuda a conhecer o ser humano em geral e, consequentemente, facilita a compreensão de nós mesmos como indivíduos. Mas ninguém é obrigado a ter este tipo de interesse específico. Não precisamos entender como funciona um motor para dirigir um carro com destreza. Contudo, adquirimos conhecimento justamente para lidarmos com o que dá errado. Quando está tudo em seu devido lugar, nosso sistema mental se sente confortável e não faz questão de entender nada, apenas de existir. É a tal história: canja de galinha e conhecimento de mecânica não fazem mal a ninguém.

Em que mundo você vive?

Qual a diferença entre o que acontece dentro do BBB com o que acontece aqui fora? Formação de grupos, competição, conluios, conchavos, pactos, traições, ódios explícitos, amizades por interesse, libido exacerbada, fantasias, estratégias, amores, líderes com poderes, benesses e puxa-sacos de ocasião, pessoas comendo bem e outras mal (umas na frente das outras), festas onde se tenta exorcizar demônios com a colaboração do álcool e de música brega e câmeras ligadas 24 horas por dia, eliminando qualquer resquício de privacidade, tudo por causa de um montão de dinheiro. E mais: observadores externos, que não participam da trama, julgando implacavelmente cada passo dos atores e definindo seu futuro. Já viu isso em algum outro lugar?

Você só é você quando está com fome

Segundo o professor de roteiro de cinema estadunidense, Robert Mckee, a pessoa só é ela mesma no estresse. A crise nos revela. E o esforço do Grande Irmão em criar conflitos dentro da casa, associado ao fato de todos lá saberem que cada palavra, cada suspiro, cada gesto seu será observado – e criticado – por milhões de pessoas, é mesmo revelador. As lentes das câmeras são, na verdade, lentes de aumento de nós mesmos.

Gentalha, gentalha, gentalha

Quem acha que as pessoas que participam deste tipo de programa são menores, precisa parar e pensar 7 minutos. Pessoas são pessoas. Todas têm conflitos, contradições e complexidade. Cada um de nós tem um universo interno, com estrelas e buracos negros. Em alguma medida somos especiais. Por isso, o desejo e o comportamento de cada uma devem ser respeitados, contanto que não se configurem em algum tipo de crime.

“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…”
Poema em linha reta, do Álvaro de Campos

 

Você pode até achar que querer participar de um programa como este fere a dignidade humana. Mas quem somos nós para julgar os fetiches alheios? Cada um tenta preencher seu vazio como quiser; Cada um usa as armas que tem: cérebro, pistolão, empatia, esforço, bunda… vale tudo na luta pela sobrevivência.

Me diga: qual a diferença entre querer participar do BBB e querer viajar para a Europa, comprar uma casa, formar uma família, abrir uma startup? O que é mais nobre? O que é um desejo de qualidade? Onde existe uma lista classificatória de nobreza de desejos? Quem mora numa favela provavelmente acha frívola boa parte das aspirações da classe média. E se você não é bilhardário, pode ter certeza de que, para os endinheirados, seus anseios mais profundos são, na melhor das hipóteses, dignos de pena.

É por falta de afinidade, nada pessoal

Somos todos BBBs, querendo ou não. E não gostar do reality pode ser apenas questão de gosto. Isso se você assistiu e refletiu sobre as coisas que eu disse e concluiu, com honestidade intelectual, que o programa não tem nada que lhe interesse. Mas se você é daqueles que não viu e não gostou, você tem problemas de preconceito, soberba, desconhecimento ou a mistura de tudo isso. Sugiro que reflita e veja se minha visão faz sentido ou não. Mas também pode decidir evitar o desperdício de neurônios e limitar-se a me mandar para o paredão.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!