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Criticar veganos está virando carne de vaca

Henrique Szklo

13/02/2018 04h02

Crédito: iStock/RichVintage

Tenho um amigo, o Rodriguez, que só não tem intolerância à lactose, porque com todas as outras coisas que caminham sobre a Terra o bicho pega.

Falando em bicho, estávamos em uma churrascaria saboreando um suculento assado de fraldinha, quando ele me contou sobre o novo alvo para sua metralhadora giratória: os veganos. Resolvi colocar o guardanapo como babador porque sabia que a partir daquele momento o sangue iria respingar para todo lado.

– Não entendo esses veganos, vegetarianos, sei lá como se fala – começou.

Explico que vegetariano e vegano têm algumas diferenças. Que o primeiro não consome carne de nenhum tipo, mas ainda se permite consumir produtos de origem animal como ovos e laticínios. Já o vegano não consome nenhum produto de origem animal: carne, leite e seus derivados, ovos, mel, lã etc.

– Tanto faz, é tudo farinha do mesmo saco. E ainda bem que são farinha, já que não comem carne.

– Fazendo piada, Rodriguez? Que bicho mordeu você?

– O bicho da coerência – respondeu antes de enfiar um naco de carne na boca.

Após algumas mastigadas, revelando uma expressão de puro prazer carnívoro, continuou.

– Coerência, entende? Esses caras têm peninha dos bichinhos, ficam indignados porque eles são abatidos para consumo. Ora, essa indignação é seletiva, meu amigo. Passa a farofa, por favor. Eles se preocupam com um tipo de vida mas esquecem de outros, daqueles que incomodam.

Fiquei ouvindo com atenção para ver onde ele iria chegar. Não sei por que ainda faço isso.

– Não pode matar porco, galinha, vaca, mas pode matar pernilongo, carrapato, barata, mosquito, formiga. Sem contar aqueles que a gente nem vê. Basta um cafunezinho na cabeça para massacrar milhares de ácaros e deixar outros milhares desabrigados.

Primeiro, o silêncio constrangedor. Depois veio a pergunta, porque ela sempre vem:

– Por acaso os vegeganos não fazem cafuné para proteger os pobres ácaros?

– Rodriguez, não viaja – respondi. – Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Quando a pessoa opta por este caminho é sempre por uma razão positiva: pode ser por ética, por saúde, por religião, mas, basicamente, o sentimento é humanitário, de empatia. Eles acreditam que os animais não devem ser mortos nem explorados. É uma postura legal. Eu não pratico, não concordo com algumas condutas, mas respeito a opção deles.

Desalentado, percebi que o Rodriguez mal ouviu meus argumentos. Ele estava tomado. E a esta altura, uma mistura inqualificável de farofa com sangue voava em todas as direções.

– Para mim essa história toda é lobby de quitandeiro e feirante. Não é possível. Sem contar que existem milhares de seres vivos que se alimentam das plantações e se você não se livrar deles, não vai sobrar nem uma folhinha de alface pra contar história. Mesmo as plantações orgânicas precisam se defender dos ataques. E vou te falar, não dá pra acabar com uma praga só pedindo por favor para sair ou colocando um aviso de proibida a entrada de Helicoverpas armigeras

– Ãhn?

– Segue meu raciocínio: toda vida é sagrada e tem valor, não é isso? Se você, por acaso pegar um bicho de pé ou uma solitária se instalar em seu aparelho digestivo, você vai fazer o quê?

Primeiro eu parei de comer, pois perdi totalmente o apetite. Depois, tentei argumentar.

– Rodriguez, vamos por os pés no chão e voltar para a realidade. Você está falando de doenças, então estamos diante de questões relacionadas à nossa sobrevivência.

– E comer carne é o que, senão uma questão de sobrevivência?

– Existem muitas outras coisas que as pessoas podem comer e não apenas produtos de origem animal.

– Você é um traidor, isso que você é. Larga esta fraldinha porque você não é digno dela. E passa pra mim!

Como eu já tinha perdido a fome mesmo, fiz o que ele pediu para ver se conseguia alguns minutos de silêncio e tranquilidade. Mas, como eu temia, o discurso logo voltou. E de uma maneira espantosa.

– É indignação seletiva. Esses caras são uns egoístas, isso é o que eles são.

– Egoístas, Rodriguez? Essa não entendi – respondi, me arrependendo imediatamente pois sabia que ele iria explicar.

– Me acompanhe. Quantas cabeças de gado existem apenas no Brasil?

– Não faço ideia.

– Eu faço. Mais ou menos 220 milhões. Pois bem. Se ninguém comesse mais carne no Brasil e nem houvesse mais exportação, quantas cabeças você acha que existiriam?

– Sei lá…

– Também não sei, mas seriam bem poucas, não? Se não vai haver abate, não há criação e, portanto, não precisaríamos chegar a um número tão expressivo. Vamos chutar. Sei lá… 1 milhão de cabeças. Tá me acompanhando?

– Infelizmente…

– De 220 milhões para 1 milhão. Sabe o que isso quer dizer?

– Não e tenho medo de saber…

– 219 milhões de vaquinhas deixariam de existir. Sequer nasceriam, coitadas.

Neste momento, ele me aponta um olhar que sugere uma conclusão óbvia a qual, por sinal, eu não cheguei.

– Pensa, pelamordedeus… 219 milhões de almas que não teriam sequer o direito de nascer e viver por alguns anos que seja. Os vegeganianos querem privar 219 milhões de seres inofensivos, que não fizeram nada a eles, do direito de existir!

Incrédulo, preferi manter o silêncio. E ele, claro, continuou. A farofa misturada ao sangue já parecia fazer parte da toalha de mesa. E do meu guardanapo feito de babador.

– Não entendeu a lógica? Você é uma planta ou o quê? Não sei não, estou achando que você está pensando em se juntar a eles.

– É… Já teve uma época na minha vida que…

– Eu sabia! – vociferou. – Meu deus, você não vê que isso é um absurdo. Basta olhar nossa história. Quando nossos antepassados passavam o dia pendurados em árvores, não comiam carne. Bastou ficarmos mais inteligentes que os animais passaram a fazer parte de nosso cardápio.

O Rodriguez possui, de fato, um pensamento lógico. Uma lógica muito própria, claro. Por isso tento não confrontá-lo, apelando para a empatia como ferramenta para desarmar a bomba.

– Rodriguez, meu amigo, deixe que as pessoas façam e vivam da forma que querem. Você se preocupa demais com a vida dos outros. O que isso faz diferença na sua vida?

– Você não vê que a nossa fraldinha está em risco? Eles podem vencer a batalha e proibir o nosso churrasco! Escuta o que eu estou te falando. Mas eu tenho uma ideia para defender nosso modo de vida. Pergunte aos vegetariganos o que eles pensam das plantas carnívoras e você verá seres totalmente confusos, perturbados, com a boca aberta sem saber o que responder. Depois eles fecham, claro, porque pode vir um mosquito, hehehe.

– Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

– Incoerência, incoerência. E indignação seletiva. Não querem comer seres vivos, então que não comam vegetais também, porque até a última vez que eu fui informado, vegetal também é um ser vivo. E só porque não grita quando é colhido, não quer dizer que não sofra.

Aproveitei um breve intervalo, enquanto o Rodriguez botava o último pedaço de fraldinha na boca, para dizer a única coisa que me restou:

– Garçom, a conta por favor!

– E embrulha a salada que eu vou levar – completou Rodriguez.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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