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Não adianta processar a coxinha por assédio

Henrique Szklo

09/01/2018 04h00

Quem resiste a uma coxinha? (Crédito: iStock)

No artigo anterior, meu tema foi a busca incansável do homem pelo conforto. Dando continuidade ao assunto, se amplificarmos o conforto a níveis elevados, chegaremos ao que se conhece como prazer. Da mesma forma que a dor é a representação do excesso de desconforto. É apenas uma questão de gradação de um mesmo sentimento.

Muito prazer envolvido

Você já reparou que tudo o que precisamos fazer para sobreviver tem prazer envolvido? Comer, beber, dormir, nos aliviar de nossas necessidades fisiológicas. Não podemos jamais prescindir de tais atividades ou morreremos. São, portanto, estímulos que a natureza dá aos indivíduos de uma espécie para que eles realizem tarefas indispensáveis para sua sobrevivência. Não se engane: somos cachorrinhos adestrados pela natureza. Biscoitinho, se fizermos o certo, e uma pancada com o jornal, se errados. Na psicologia, são conhecidos como reforço positivo e reforço negativo.

Já o sexo, que é o maior prazer de todos, não é exatamente obrigatório. Se os outros prazeres estão ligados à sobrevivência do indivíduo, o sexo está relacionado à sobrevivência da espécie como um todo. Se alguém não quiser ou não puder praticá-lo, tudo bem: existem muitos indivíduos para cumprir com esta sacrificante tarefa.

Caçadores da Fonte de Prazer

O prazer é praticamente nosso objetivo na vida. O prazer ininterrupto, nossa utopia. Daí a importância que damos ao que chamo de Fonte de Prazer. Nosso radar está sempre ligado e, quando encontramos algo que nos ofereça um prazer inequívoco, a tendência é mordermos este osso metafórico e não o largarmos, a menos que aconteça algo dramático.

A Fonte de Prazer pode ser uma pessoa, um trabalho, um jogo, uma droga, uma bebida, o cigarro ou qualquer outra coisa que substitua o vazio que sentimos. É uma clara compensação relacionada a algum nível de ansiedade, frustração, desencanto com a vida ou qualquer outro sentimento que nos prive de sensações agradáveis. E quando a Fonte de Prazer toma conta de nosso cérebro, estaremos perigosamente suscetíveis a alguma modalidade de vício.

A comida é o mais pérfido vício de todos

Excluindo-se as pessoas com dificuldades financeiras, comer é um ato acessível, fácil e promove um prazer instantâneo. Mas como todo vício, é preciso aumentar a dose mais e mais para se ter a mesma sensação. A consequência disso pode ser constatada pelo tamanho dos traseiros crescendo a olhos vistos em todo o mundo. A população mundial está se tornando cada vez mais obesa e, por consequência, mais propensa a doenças.

E eu digo que a comida é o pior vício por uma questão muito simples: parte importante do tratamento para qualquer adicto é o completo afastamento de sua Fonte de Prazer. Ao dependente químico, por exemplo, mesmo após anos de abstinência, basta um pequeno contato com a droga para desencadear o tsunami psicológico que o levará a um amargo retorno. É o cérebro se lembrando com saudades de sua amada Fonte de Prazer, praticamente obrigando a pessoa a retomar sua relação.

No caso da comida, não há como se abster totalmente. Não podemos parar de comer, imagino. Então, na primeira garfada, o mesmo processo que acontece com o dependente químico entra em ação. Nosso bom senso é sufocado e o instinto de sobrevivência toma seu lugar. E o instinto de sobrevivência, como o nome já diz, não pensa. Reage.

Não adianta processar a coxinha por assédio

Imagine-se acordando após uma noite de exageros e luxúrias gastronômicas. O primeiro pensamento que vem à cabeça é que neste dia você terá de se controlar para compensar o dia anterior. Nada de exorbitâncias alimentares. E lá vai você a caminho do trabalho quando passa por uma padoca e uma coxinha no formato de sereia canta para você e acena freneticamente, como se você fosse um amigo que ela não vê há tempos.

Neste momento, o instinto de sobrevivência dá um “Boa noite, Cinderela” para a razão e produz um pensamento matreiro que toma seu cérebro de assalto: “O que uma coxinha pode fazer de diferença? É só uma coxinha inocente. Depois eu compenso no almoço”. E se rende àquela sedução galinácea. Três coxinhas e um litro de coca depois, o instinto de sobrevivência devolve o controle ao cérebro racional e, obviamente, a culpa chega em fração de segundos. O instinto de sobrevivência é a maior força dentro de nós. É irresistível e implacável. A culpa não é sua. Nem da coxinha.

Nosso instinto de sobrevivência tem entre seus protocolos, a necessidade de economizar energia sempre que for possível. Entre outros efeitos, está nossa tendência de comer, mesmo sem estarmos com carência de energia. Nosso cérebro ainda está muito ligado a necessidades que remontam ao tempo em que pulávamos de uma árvore para outra e quer por que quer produzir um largo e pesado repositório de energia: a tão aspirada gordura.

Quando a fome é nossa amiga

O instinto de sobrevivência faz com que nosso cérebro trabalhe com reações pragmáticas. O neuroscientista Mark Mattson, Chefe do Laboratório de Neurosciência no National Institute on Aging e professor da Universidade Johns Hopkins, em uma palestra para o TEDx Talks, relatou que, quando o cérebro se dá conta de que estamos com fome, nosso organismo é estimulado e ganha uma energia extra. O cérebro fica mais ativo, a comunicação entre os neurônios é aprimorada, facilitando nosso aprendizado e estimulando nossa memória. Isso nos faz mais aptos a sair em busca de alimentos. E quando estamos saciados, este mecanismo é revertido. Por isso, a pessoa que frequentemente come menos tem mais energia do que a que come mais. Basta você se lembrar como fica quando sai de um rodízio ou de uma feijoada imoral.

O sistema é tão bem bolado que existe um mecanismo em nosso cérebro que faz com que, ao atingirmos um nível elevado de fome, ele pressinta o risco e desligue a sensação de nojo. Daí a capacidade de pessoas em estado de privação total de alimentos serem capazes de comer coisas que nos viram o estômago.

Nosso instinto de sobrevivência não sabe ler estudos científicos

Voltando à Fonte de Prazer, fica claro percebermos que a dificuldade em equilibrar a alimentação está justamente na soma da questão psicológica com a biológica que nos empurra de bocas abertas em direção a qualquer porcaria que tenha um cheiro ou uma aparência apetitosa. Um dos mais praticados esportes do ser humano é descontar na comida tudo o que aconteça de errado em suas vidas. Porém, engordar não seria um problema se não provocasse tantas doenças graves, como apontam categoricamente os estudos científicos. Mas, contraditoriamente, nosso instinto de sobrevivência, que deveria, em tese, estar cuidando de nossa saúde, está se lixando para estudos científicos.

É por isso que fazer regime não funciona, ao contrário, tende a agravar o problema. Ficar muito tempo sem comer, contrariando uma rotina conhecida pelo cérebro, o faz acreditar que estamos sendo privados de comida, o que é perigoso. Quando nos encontramos novamente com ela, ele tratará de gerar um bom estoque, prevenindo-se caso um prolongado período sem alimentos se repita novamente. Não sou especialista, mas, para mim, uma das alternativas para resolver este imbróglio é mudar o hábito alimentar, fazendo com que o cérebro aos poucos se acostume à uma nova rotina.

A despeito de todas as desvantagens em se alimentar, continue comendo. Não há o que fazer. Como os dependentes químicos, seremos viciados por comida o resto de nossas vidas. Nos cabe apenas aprender a conviver com esse pesado fardo. Se for difícil para você aceitar esta realidade, vá lá na padoca e manda ver umas coxinhas. Se tiver a de catupiry, então…

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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