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Blog do Henrique Szklo

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O dono da verdade sabe muito bem o que é melhor pra você

Henrique Szklo

2024-07-20T18:04:00

24/07/2018 04h00

Crédito: iStock

De todas as pessoas abestadas que encontro por aí, o dono da verdade talvez seja a mais fascinante. Fico assombrado em testemunhar quem acredite sinceramente que sabe o que é certo e o que é errado sobre qualquer assunto sem a menor molécula de dúvida. E como complemento desta personalidade ímpar, o desejo de compartilhar. O dono da verdade não se contenta em guardar todo o seu vasto conhecimento e bom senso para si mesmo. Ele tem uma necessidade, ou melhor seria dizer, uma obsessão por expor e impor suas crenças. E a despeito de todo seu brilho e intelecto privilegiado, o proprietário da verdade geralmente não sobrevive a cinco minutos de escrutínio sobre sua própria vida e comportamento. Nada de braçada na vida dos outros, mas se afoga em sua própria experiência pessoal. Mas isso é só a minha opinião.

O dono da verdade é investido de voz da sabedoria, de biblioteca da ética, de google do comportamento, de senhor do bem e do mal. Não é por acaso que em sua peregrinação pela educação alheia, ele não se furte em ser autoritário e grosseiro com os menos inteligentes, ou seja, todas as outras pessoas. Pode ser uma técnica para inibir o interlocutor, mas também pode ser uma autêntica perda de equilíbrio emocional, típico de pais que se ultrajam diante do mau comportamento de um filho.

A grosseria faz parte da personalidade do dono da verdade. Por que de outra forma como é que os outros poderiam beber dessa fonte do saber. A turba ignara está sempre envolta em sua vidinha sem importância, dando atenção a futilidades e questões absolutamente irrelevantes para a evolução da humanidade. O dono da verdade é quem carrega a dura missão, o estandarte, é aquele que se sacrifica pelo povo, abrindo seus olhos, mostrando o caminho, a luz que a maioria insiste em não enxergar, preferindo viver na escuridão. Isso ele não pode admitir. O dono da verdade é um mártir. Por isso tem de ser firme em sua catequese.

Existem vários tipos de donos da verdade. Tem aqueles que só a pegaram emprestado, mas se fazem de donos, sabe como é? Estes são os inofensivos, na verdade, porque não têm dinheiro nem poder sobre os outros. São apenas chatos. Devemos evitar embates, aquiescendo com sorriso amarelo, como fazemos quando não queremos discussão. Tipo "hã-hã, tem razão". Esta categoria de inquilino da verdade é como pedinte de farol de trânsito: Só faça contato visual se estiver disposto a uma conversa. Do contrário, é melhor fingir que não percebeu sua presença. Como cantava João Gilberto: "Pra quê discutir com madame".

O outro tipo de dono da verdade é aquele que está a serviço do verdadeiro dono, mas se acha investido de autoridade suficiente para educar os outros. Este é o capataz da verdade. Ele não faz a menor ideia onde a verdade está, mas confia em seus superiores. Muitas vezes é um professor mais exigente e enérgico que o próprio dono. Existem pessoas as quais não podemos dar uma farda que elas já saem distribuindo ordens a torto e a direito. Este assistente da verdade geralmente é um capacho do dono, e por isso mesmo se redime de sua insignificância subindo nos outros. Suas verdades são muito mais verdadeiras. Sua noção de certo e errado são muito mais claras e explícitas. É bom porque a gente não fica mesmo em dúvida. São extremos difíceis de se confundir. Em função de seu "imenso" poder, essa raça de detentores da verdade não pode de maneira nenhuma ser ignorada. Nem questionada. Você não pode tratá-lo com o desdém com que trata o vendedor de balas. Não se contenta em impor a visão que, estrabicamente, acha que é a do dono, como ainda faz questão absoluta que expressemos nossa concordância tácita. Não basta aceitar a opinião dele, é imperioso que como ele mesmo fez, acreditemos que aquela é a única e inquestionável verdade.

Outra categoria conhecida é a de sócio da verdade. Esse é um tipo mais dissimulado. Ele mesmo não se manifesta assim tão enfaticamente. Prefere que outros o façam por ele, como o capataz da verdade. Mas mesmo sendo mais discreto, não consegue disfarçar o orgulho de ser privilegiado, diferenciado, superior. É aquele que quando você diz alguma coisa ele dá aquele sorrisinho irônico, demonstrando uma mistura de tédio e magnanimidade. Boa pessoa que é e consciente do papel dos líderes, não vai discutir com alguém que não tem condição de entender a profundidade do assunto. Que não tem instrução nem alcance para engatar uma conversa de alto nível. Ele não quer constranger os ignorantes, bom coração que é. Este tipo geralmente não tem ascensão sobre nós. Não é chefe nem provedor. Apenas uma pessoa melhor que a gente que encontramos por ai em eventos dos mais diversos tipos, desde um congresso de empresários até uma festinha de criança. Este espécime prefere dissimuladamente zombar do que ensinar. Prefere o escárnio e a humilhação alheia. Quando se encontra com seus iguais ele se regozija ao relatar a astúcia com que tratou os inocentes úteis dos andares de baixo. Sejamos sinceros: O sócio da verdade é um mau professor. Ele é egoísta e guarda todo o seu invejável conhecimento para si mesmo. Que feio.

Agora chegamos ao verdadeiro dono da verdade. E não só da verdade, de nós mesmos. É o proprietário da bufunfa. O cara da grana. O bam-bam-bam. O manda-chuva. O rei da cocada preta. Não uma simples última bolacha do pacote, mas um pacote inteiro de Óreo (que é importado). Esse aí não tem nenhum problema em impor o que quer que seja aos seus subalternos. Não tem a menor preocupação em disfarçar. Afinal de contas, ele é quem paga as contas. Nossos boletos dependem dele. E ai de quem o enfrentar. Ai de quem não enxergar o que ele sabe ser certo e errado e insistir na sua própria opinião. Provavelmente vai morrer abraçado com a sua verdade, que, sejamos francos, se você não tem poder, não tem valor nenhum. O mundo é cruel, mas é assim, já dizia o dono da verdade.

O dono da verdade sabe que tem uma responsabilidade, da qual ele não foge. Sabe que sua sabedoria pode mudar a vida das pessoas mais simples. É quase uma missão divina: Ensinar o caminho aos desfavorecidos de perspicácia, inteligência e responsabilidade. O dono da verdade sabe o que é melhor para todos nós. Às vezes ficamos descontentes com o que ele diz, mas sabe como é, a vida não é como gostaríamos que fosse e o dono da verdade vai nos ensinar qual é o caminho. A gente querendo ou não. O dono da verdade é como um pai para todos nós. Severo, mas no fundo quer apenas o nosso bem.

Nós precisamos do dono da verdade. Ele é nosso guia. Nossa luz. Nosso norte. Sem ele estaremos irremediavelmente perdidos em nossa confusão mental. E pode ter certeza de que ele não abre mão de sua missão divina e usa de todo o seu poder para nos ilustrar e decidir o que é melhor para a nossa vida, nossa carreira, nossos negócios, nosso coração, para nossa alma. Ele nos conhece melhor que nós mesmos. Ele sabe do que precisamos e de como chegar lá. O dono da verdade tem uma capacidade espantosa de olhar para um evento e imediatamente saber o que sucede. Não precisa de dados, não precisa enxergar as circunstâncias, não precisa tomar contato com as variáveis presentes. Ele olha e sabe. É uma maravilha.

Ele é especialista, por exemplo, em como educar filhos, principalmente os dos outros. O que é melhor para a criança. Mesmo à distância, mesmo sem acompanhar o dia-a-dia dos pirralhos, ele tem a sapiência para determinar o que pode ser nocivo e prejudicial para o ser humano desde os primeiros anos de vida. Pais em geral são aparvalhados estúpidos que não têm a menor noção de como criar um ser humano saudável e decente. Se deixarmos nas mãos deles, meu Deus, sabe-se lá como estaria o mundo hoje. O dono da verdade trabalha pela evolução da espécie.

O dono da verdade não deveria pagar impostos, já que ele presta um serviço público importantíssimo. Quem sabe poderíamos criar um conselho especial, uma espécie de Academia de Letras, onde os imortais donos da verdade poderiam discutir sobre os destinos da humanidade. Onde pudessem se encontrar para um chá e derramar um pouco de sua sabedoria sobre toalhas de linho. Ah, mas teria um problema complicado: Como o dono da verdade não aluga, não troca, não vende nem empresta, eles não conseguiriam chegar a um acordo sobre quem teria posse da verdade mais verdadeira.

Quando o dono da verdade anuncia que vai dizer umas verdades, prepare-se porque o show vai começar. Principalmente porque nestes casos específicos pode ter certeza que você vai se lascar. Ele não vai passar a mão na sua cabeça. Para ele as verdades, não sei porque, são sempre agressivas, opressoras e com um componente educativo cruel e inclemente. Verdades são palmatórias. Verdades são tapas na cabeça. Verdades são chutes na bunda. Verdade ou mentira?

Eu queria muito ser dono da verdade, mas meu pai morreu e a levou com ele para o túmulo. Sabe como são os pais. Nem sempre acreditam que somos capazes de carregar o peso da sabedoria que eles passaram a vida acumulando. Eu entendo. Quer dizer, não sei se entendo ou não. Papai precisaria estar vivo para me dizer.

 

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!