menu

Topo
Blog do Henrique Szklo

Blog do Henrique Szklo

Categorias

Histórico

Não existe mais lugar para quem não quer mudar de lugar

Henrique Szklo

2005-06-20T18:04:00

05/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Sinto informar, mas zona de conforto existe apenas dentro de nossas cabeças. Já do lado de fora da caixa encefálica, o bicho está pegando. A natureza, em sua dinâmica feroz, não permite a nenhum mísero átomo o privilégio da imobilidade. E esse é o maior pesadelo do homem moderno. Sabemos que é importante enfrentar as mudanças, mas não aguentamos o tranco quando elas se materializam. Nos sentimos expulsos deste paraíso ficcional chamado zona de conforto.

Talvez fosse mais fácil antigamente quando a pessoa nascia, crescia e morria sem praticamente nada a sua volta mudar de forma evidente. Agora, meu amigo, o mundo está em chamas. Confesso que dei graças a Deus quando o Steve Jobs morreu. Não aguentava mais entrar na internet toda semana e me deparar com o dono da Apple apresentando mais algum iTreco que eu obrigatoriamente precisaria ter, conhecer, saber usar, invejar, o que fosse, para não ficar com cheiro de naftalina.

Mesmo que eu tivesse acabado de comprar, conhecer, aprender a usar ou invejar a versão anterior, agora totalmente ultrapassada. Ingenuamente, imaginei que, ao partir, aquele doido levaria consigo todos os meus temores. Não acabou, mas melhorou. Hoje nem sei o nome do atual presidente e os lançamentos recentes falharam vergonhosamente em me aterrorizar. Se tudo der certo, a Apple em breve será apenas um tipo de Samsung com design, nada mais. Deus é coreano.

Mas não existe mudança que me apavore mais do que a de endereço. Aquele bando de gente descuidada manipulando todos os meus pertences, os colocando em caixas de papelão, caríssimas, com um falso cuidado e as arremessando para dentro de um caminhão que sabe-se lá se chegará ao seu destino. Como se não fosse suficiente, horas depois descarregam tudo em outro local com aquela pressa contida, típica de quem quer logo largar o batente, mas não pode assumir isso.

Meu Deus, quanto tempo vai demorar para inventar o teletransporte? Nessas horas, gostaria que o Steve Jobs renascesse para poder criar mais uma de suas traquitanas geniais: o iMove, em várias cores. Seria o fim da minha tragédia pessoal, vendo aqueles homens de macacão fazendo escravos-de-jó com minha vida material.

Como é difícil administrar mudanças, não? Principalmente aquelas que não temos elementos suficientes para analisar suas consequências. Mudanças que parecem acontecer apenas para nos desestabilizar, nos tirar da velha, boa e agradável zona de conforto.

Mas por mais que eu sofra, sei que não adianta lutar. Mais que isso, sei que talvez o melhor mesmo seja tentar ser seu agente. Que talvez o que nos resta é tentar adquirir o controle do inevitável, nem que seja apenas de um pedacinho dele. O desconforto da mudança sempre irá existir, mas certamente é bem maior quando você é pego de surpresa. Com as calças na mão, como se dizia. Quando você é quem a promove, o desconforto acaba sendo menor. É o que se diz por aí: é melhor ser ativo do que passivo.

Agora a parte engraçada: eu e todo mundo, a despeito da dificuldade inerente, vivemos clamando por mudanças, sonhando com elas. Mas, inevitavelmente, quando nos vemos diante de uma bem encardida, a choradeira começa. Somos analfabetos espaciais. Desejamos mudar sem saber exatamente o que isso significa na prática. Ansiamos pelo câmbio – como dizem os castelhanos –, mas não fazemos ideia de suas consequências.

A mudança em si não é um valor. É apenas uma esperança de melhora. Ninguém quer mudar por nada. Queremos mudança quando não estamos satisfeitos. Mas mudar para onde? Sei lá, quero mudar. Pensamento perigoso, muito perigoso. A mudança é trapaceira. Fica com seu canto de sereia nos ouvidos despreparados, incitando revoluções. O que ela não garante nem pode é que vai ser para melhor ou para pior. Uma mudança pode ser a salvação do mundo ou uma armadilha mortal. Imploramos aos céus por mudanças e quando elas estão diante de nossos narizes começamos a ouvir aquela voz interior: "em-time-que-está-ganhando-não-se-mexe…", "é-melhor-deixar-como-está…", "não-mexe-com-quem-tá-quieto…", e por aí vai.

Em empresas acontece o tempo todo. Funcionários desanimados reclamam pelos corredores, desejando mudanças. Aí muda o chefe e ele, de fato, promove as mudanças, e, então, todo mundo odeia o cara instantaneamente.

Na dúvida, é melhor deixar como está. É menos problema pra todo mundo. Mudança dá trabalho, mudança incomoda. Mudança muda. É desta forma que administramos mudanças, principalmente aquelas que não foram promovidas por nós mesmos. E se o responsável por elas for representante de um grupo que abominamos, então é tiro e queda: não haverá um segundo de reflexão. É errado e acabou. Afinal, mudança boa é aquela com a qual concordamos. Caso contrário é desrespeito.

O problema insolúvel é que toda mudança, para o bem ou para o mal, incomoda num primeiro momento. Mudança é quebra de padrão e quebra de padrão dói. Zona de conforto não tem este nome a toa. Mas esteja certo de que só conseguiremos avaliar o valor de qualquer mudança após um certo tempo decorrido, quando finalmente conseguirmos observar o fenômeno com distanciamento, com perspectiva histórica. E ouso dizer que mesmo assim jamais saberemos se, no final das contas, a mudança x ou y foi benéfica ou trágica. Os desdobramentos que cada situação provoca numa vida chegam próximos do infinito. Mas tenhamos um pensamento confortável: quem sabe este mistério nos seja revelado na hora de nossa passagem? É, pode ser. O problema é que aí já vai ser tarde demais. Não poderemos mudar mais nada.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!