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Blog do Henrique Szklo

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Leia. Você não tem nada a perder

Henrique Szklo

2029-05-20T18:04:03

29/05/2018 04h03

Crédito: iStock

Desde pequenos precisamos aprender a lidar com perdas. Mas por que é que temos de ser polianas e aceitar essa violência de forma tão complacente? Eu nunca vou aceitar uma perda como parte da minha vida. Pra mim, sempre será uma espécie de castigo divino.

Tenho um problema com isso. Quando vejo um filme onde vários carros são destruídos, ou pior, quando uma montanha de dinheiro é queimada ou voa pelos ares, me dá um aperto no coração. Não lembro em que filme assisti um escritor brigando com a namorada e ela jogando os originais de seu livro no mar. Numa época em que não havia computador, ou seja, aquela era a única cópia. Na ocasião, lembro que me deu vontade de morrer.

Quem aí nunca perdeu arquivos fundamentais, programas, trabalhos, por causa de vírus, queima de HDs, esquecimento na hora de salvar ou simplesmente roubo. O sentimento é terrível. E a culpa por não ter feito um backup? Perdeu, playboy.

Não consigo, e nem quero, imaginar as pessoas que perdem sua casa e tudo o que tem dentro por incêndio, alagamento, demolição, o que seja. Não sobra nada para trás. Viram fantasmas sem passado. Sem registro de sua existência. Os otimistas dirão que é uma boa oportunidade de limpar o passado e começar de novo. Ah, os otimistas… se eu pego um otimista na hora em que o meu mundo foi virado de ponta cabeça, eu faço ele perder alguma coisa, como, por exemplo, seu otimismo.

Dizem que é bom a gente de vez em quando se livrar de coisa velha em nossas casas, o que, de certa forma, também são perdas. Aquela calça que você comprou há cinco anos e nunca usou, mas que um dia poderá usar. As fitas cassete que você não tem onde ouvir, porque na última limpa se livrou do gravador. As agendas de anos passados com anotações fundamentais para contar a história de sua vida que você nunca procurou, mas que um dia poderia procurar.

Celulares antigos, remédios vencidos, caixas vazias, os cadernos do colegial, as cartinhas do namorado de infância que virou um adulto intragável, post-its que já perderam a cola e a utilidade, aquele cabo azul para internet, óculos ressecados, 7.391 cartões de visita, roupas que não cabem mais há anos, mas que você tem certeza que vão voltar a caber um dia. Aliás, a perda de peso talvez seja a única que não só aceitamos de bom grado como desejamos ardentemente.

Tenho certeza de que as pessoas mais felizes do mundo são as acumuladoras. Aquelas que você não consegue nem entrar na casa porque já não tem mais espaço para nada, já viu na TV? Elas não perdem nada. Não abrem mão de nada. Não deixam que esta sociedade selvagem e ditatorial nos obrigue a descartar as coisas das quais nos apegamos, que tanto precisamos e que nos fazem tão bem.

Existem aquelas perdas que são passageiras ou que podem ser. A namorada, o emprego, o ônibus, o sangue, uma oportunidade, a razão, etc. Com estas, apesar de dolorosas, enfrentamos com mais altivez por estarem de alguma forma impregnadas de esperança em função de sua reversibilidade. De uma forma ou de outra você pode dar a volta por cima e reconquistar. Não que consiga. Mas a possibilidade de conseguir já ameniza o dano.

Os atores em Hollywood demonstram todo o seu talento não nos filmes em que atuam, mas naquele momento em que perdem o Oscar para outro e tem de demonstrar felicidade e orgulho pelo colega, enquanto desejam do fundo de sua alma dilacerante que ele tropece nos degraus e caia com a boca aberta sobre o prêmio. Quem perde não tem vontade de sorrir nem de aplaudir.

Já as perdas definitivas são amargas, cruéis, inclementes, pois elimina definitivamente qualquer esperança: entes queridos, cabelos, virgindade, caráter, honestidade, membros do corpo, consciência, movimentos, o tempo. É claro que existem próteses, substitutos para alguns itens, mas jamais será a mesma coisa. Por exemplo, deixar crescer o cabelo de um lado e jogá-lo sobre a careca não vai fazer de você um Valderrama, ao contrário. Fará um cafona que não pode pegar vento. Além de perder cabelo, corre o risco de perder a dignidade.

Não há nada mais doloroso do que um humorista perder a graça, um general perder a guerra, um pianista perder os movimentos da mão, uma costureira perder a linha, um alucinado por dinheiro perder alguns tostões, um artista perder a sensibilidade, uma celebridade perder a fama, um neurocirurgião perder a cabeça, a modelo perder a juventude, um ser humano perder o celular, o Brasil perder de 7 a 1, um cachorro perder o osso e, a propósito, um gatuno perder o mandato.

O futebol nos ensina, mas principalmente aos treinadores, que o importante é vencer. Não importa a qualidade do trabalho, as boas intenções e a história pregressa. Perdeu, tá fora. Chute na bunda pela porta dos fundos. Esta bobagem de que o importante é competir é papo de quem ganha ou de quem não quer admitir o vexame inominável que é perder. Não, perder é sempre ruim. Sempre danoso. Sempre doloroso.

Uma bênção é a nossa memória seletiva que nos ajuda a esquecer a maioria das vezes em que apanhamos da vida, exceção feita aos masoquistas, vitimistas e depressivos em geral. Perdemos a memória por proteção psicológica, para preservar um relacionamento amoroso, enfrentar o dia seguinte de uma bebedeira ou simplesmente para nos livrar dos pecados sem fazer força.

Ouço muito que é preciso perder para valorizarmos os ganhos. Concordo. Mas ninguém me perguntou se eu faço toda essa questão de valorizar os ganhos. Talvez eu nem queira ganhos. Pode ser que eu prefira ficar numa espécie de purgatório: entre o céu e o inferno, quietinho, sem me mexer muito, me fingindo de morto para não ter que escolher ou ser afetado de alguma forma pelos dois polos. Quero uma vida sem perdas. E se para isso eu tenha de abrir mão dos ganhos, que assim seja. Só nisso já saio ganhando.

É de senso comum que as perdas na vida são educativas, que fazem a gente mais maduro, fortalece nosso caráter, nos dá uma visão mais real do que é a vida e nos ensina sobre valores e prioridades. Dizem que você não pode ter sempre o que você quer. Mas que se você tentar com afinco poderá, de vez em quando, conseguir o que precisa. Ah, vá te catar, Mick Jagger.

Então, se eu puder te dar um conselho, não perca!

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!