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Que tiro foi esse? Crítica, marketing ou só mais um clipe bacana?

Henrique Szklo

15/05/2018 04h00

Donald Glover, o Childish Gambino, no clipe “This is America”. Crédito: Youtube

Quando assisti o clipe “This is America” desse cara chamado Childish Gambino, alterego do multitalentoso Donald Glover, o impacto foi imediato. Pra mim e, imagino, para a torcida do Real Madrid. Dirigido por Hiro Murai, japonês que trabalha em parceria com Glover em vários projetos, é de uma riqueza visual que atordoa mesmo sem a gente perceber as incontáveis referências e mensagens ocultas que são utilizadas.

Confesso que da primeira vez que assisti, não prestei atenção à letra. E gostei mesmo assim. Depois assisti outras vezes prestando atenção e gostei mais. A letra é forte e o rap tem uma dinâmica e um ritmo diferente, pelo menos daqueles que conheço.

Mas o que me chamou mais a atenção foi a linguagem corporal de Glover, que surpreende já nos primeiros segundos do vídeo. As expressões faciais e os movimentos do corpo fisgaram meu olhar por sua originalidade e forte ironia. Quero ver mais. Acaba rápido e ponho pra ver de novo. É divertido. É trágico. É brutal. Eu não canso de assistir.

Um manifesto contra a violência associada ao racismo

O vídeo transborda de metáforas, mas, num primeiro momento só entendi as universais. Quando fui ler sobre o fenômeno em outros sites, descobri que existem múltiplas referências relativas à cultura negra, principalmente à estadunidense. Quando descobrimos o que é a América, em sua centenária cultura de opressão aos negros (como a nossa), a nota do vídeo aumenta.

É realmente um projeto que não economiza em criatividade e profundidade pra dar um soco na cara da gente. E ao entender o que há por trás de todo aquele pandemônio, nos damos conta de que a gente, de fato, merece a porrada.

Autocrítica ou truque?

Ninguém é poupado: nem os negros nem o próprio artista. Sobrou pra todo mundo. Até para aqueles a quem a música, a princípio, parecia pretender defender incondicionalmente. A crítica ao papel de aliciados em troca de dinheiro e de aceitação social também é uma mensagem forte no vídeo.

Observando mais atentamente, talvez o tiro tenha saído pela culatra. A peça é tão marcante, rica e magnética que acabou roubando a cena, deixando a problemática da violência contra negros em segundo plano. “This is America” ficou mais para entretenimento do que para crítica. A diversão das pessoas é encontrar as mensagens ocultas, sem dar muita bola para a gravidade da denúncia. Psicologicamente até dá para explicar. Para fugir de nosso sentimento de culpa por não tomarmos providências contra algum absurdo, desviamos nosso olhar para o lado mais doce da questão, no caso o imenso quebra-cabeças metafórico criado pelos autores da peça.

Tiro no pé?

Sem querer ou querendo, Glover cumpriu o papel reservado a ele pela sociedade (segundo sua própria mensagem), reforçando a ideia de que a função dos negros é entreter e enriquecer os brancos em troca de dinheiro e aceitação social. This is America é entretenimento. Da melhor qualidade, mas é. Tratando de um caso centenário de violência e opressão, mas é. Apresentando cenas fortes e dramáticas, mas é.

Outro fenômeno: passados apenas alguns dias do lançamento, aparentemente o terremoto que atingiu a internet já não provoca tantas réplicas, ou aftershocks. Já não se dá mais tanta importância ao clipe de Childist… quem? Existem outras coisas mais interessantes para nos entreter. É por isso que eu tenho total consciência de que este artigo não passa de notícia velha. Desculpe.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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