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Blog do Henrique Szklo

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Hoje, até quem é contra é a favor

Henrique Szklo

08/05/2018 04h05

Crédito: iStock

Vivemos um momento estranho. O desequilíbrio criado pela queda do muro de Berlim deixou a humanidade manca, com uma perna mais comprida do que a outra. Coxa, como a Eugênia de Machado de Assis. Ou melhor seria dizer que ficou com uma perna só. A perna do consumismo desembestado. Somos os sacis do consumo.

Quando caiu o muro germânico, imediatamente outro muro se ergueu a nossa volta. Mais alto e mais sólido. Só que desta vez não há nada do outro lado. O muro serve apenas para nos aprisionar e evitar que queiramos viver outros ares, outras experiências. Só existe um certo e, consequentemente, o que o contradiz, é errado. Vivemos em um feudo cultural. É preciso começar a pensar em derrubar este muro também.

A coisa está tão maluca que mesmo quem é contra o sistema faz parte do sistema. Não existe mais questionamentos de peso, robustos, que incomodem o mainstream. Quando alguém é diferente, é um diferente consumível, um diferente que é igual a um monte de outros diferentes. Virou moda ser diferente. Ser diferente gera muitos likes.

Quando surge um ator mais radical neste teatro, inevitavelmente acaba se tornando folclórico e conquistando seus milhares/milhões de seguidores e, consequentemente, sua fatia neste disputado mercado do "diferente". Todo mundo quer ser uma marca.

Hoje até quem é contra o status quo tem o seu espaço dentro do mundo do consumo, sendo alimentado por produtos e serviços que servem perfeitamente a seu modo de vida alternativo. Todo mundo tem uma marca de roupa projetada especialmente para seu grupo social. Não sei se há como escapar.

Precisamos urgentemente de um movimento de contracultura. Eu sei que ele ainda está vivo, mas está entubado e respira por aparelhos, já que é restrito a pequenos grupos aqui e ali. Estou falando de um movimento de contracultura de alta octanagem.

Quando digo contracultura, não há como desconectar dos movimentos da juventude que marcaram os anos 60, com alguns resquícios nos anos 70 e 80 com o punk e seu demolidor Sex Pistols. Jovens brancos de classe média com acesso à cultura dominante entraram em conflito com seus pais em particular e com quem não era jovem em geral. Rebeldia, insatisfação, rompimento de padrões estabelecidos, questionamento de valores defendidos pelas corporações e o mercado cultural, que gerou uma profunda mudança de comportamento. Foi radical, mas pacífico.

O problema é que muito do que se conquistou naquela época foi justamente engolido pelo mercado. Aquela história de que se você não pode vencê-lo, compre-o. O rock, por exemplo, que surgiu como uma provocação à caretice, quase uma ofensa em forma de música, hoje vende seus shows, LPs e EPs para os caretas e ainda faz marketing pesado para agradá-los e mantê-los fiéis. Até o grafite, que antes era coisa de vagabundo e desocupado, virou produto de consumo e é admirado pelos modernos em todos os lugares do mundo. As tatuagens, que já foram símbolo de contravenção e crime, são hoje quase que uma obrigação. O Rap virou produto de consumo, o funk erótico virou produto de consumo. Os párias se transformaram em virtuosos. Venderam seu espírito de contestação por alguns dinheiros. Agora tudo pode ser vendido. Tudo pode ser comprado. Tudo merece um aplicativo.

Escritores, poetas, dramaturgos, blogueiros, tem muito pouca gente batendo de frente com o establishment. Mas não tem escapatória. Quando começa a bater, logo vira queridinho de algum grupo de influenciadores e cria seu canal de Youtube, passa a vender camisetas, lançar livros, dar palestras e ministrar workshops. É a assimilação cultural em sua mais insidiosa versão.

A mídia absorve tudo, entende tudo, aceita tudo. Contanto que tenha quem consuma o tudo que ela controla. Eventualmente, quando é do seu agrado, cria novos e inúteis objetos de desejo. A internet e suas redes sociais tiraram um pouco desse poder absoluto. Mas não se iluda. A intenção nunca foi lutar contra a mídia, e sim criar novos nichos de poder.

O que antes era Woodstock, hoje é Lollapalooza. O psicodélico virou drogado. O Flower Power virou aplicativo de entrega de flores. Hoje, a cultura underground é balada no porão, a cultura alternativa é comida natural e a cultura marginal é aquela que só os jovens descolados consomem, mas que, em breve, encontrará seu espaço na mídia e redes sociais. Lamentavelmente, as únicas manifestações atuais de um tipo torto de contracultura são associadas à barbárie, como movimentos fascistas, nazistas, xenofóbicos, homofóbicos e racistas em geral.

Precisamos urgentemente de representantes contemporâneos dos grandes artífices da contracultura dos anos 60. Precisamos de Jacks Kerouacs, de Timothys Learys, de Janis Joplins, de Jims Morrisons, de Jimis Hendrixs, e, por que não, de tropicalistas, os Gilbertos Gils, e os Caetanos Velosos, sem esquecer dos Antropofágicos Oswalds de Andrade. Mas isso é apenas uma utopia, que por sua vez também é um conceito ultrapassado.

Acho mesmo difícil um movimento de contracultura contemporâneo, já que os protagonistas precisariam necessariamente ser os jovens. Mas são os jovens e suas startups que protagonizam e alimentam o sistema atual. Querem mudar o mundo, contanto que fiquem milionários no processo. A alma dos jovens está sendo vendida pelos próprios jovens. Parece que as tábuas da lei ganharam mais um artigo: não questionarás!

Não confunda meu discurso com saudosismo. Quando me refiro à contracultura não quero dizer necessariamente um clone do movimento hippie. Para mim significa, genericamente, o enfrentamento ao estabelecido, um forte espírito de contestação, uma subversão generalizada, um sacode nas tradições de forma intensa e radical, rompendo as regras do jogo. Se o objetivo é revigorar a sociedade e desencadear mudanças culturais dramáticas, é preciso pegar pesado.

Mas como seria um movimento de contracultura hoje? Algo que fosse capaz de se manter impermeável ao mercado de consumo? Que resistisse aos modernos e suas modas, que renegasse o licenciamento de produtos e realmente desse uma sacudida social e cultural nesse mundo tão cheio de regras e aplicativos para todos os fins? Confesso que me falta clareza e talvez juventude para vislumbrar algo realmente subversivo.

Mas não perco a esperança de algum dia ser protagonista de uma nova onda de contracultura. Quero mesmo ser diferente de tudo isso que está aí. Se não conseguir, que pelo menos eu amealhe alguns milhões de seguidores. E não esqueça de visitar meu canal no Youtube.

 

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!