menu

Topo
Blog do Henrique Szklo

Blog do Henrique Szklo

Categorias

Histórico

Cuidado com quem você compartilha suas ideias

Henrique Szklo

2001-05-20T18:04:15

01/05/2018 04h15

Crédito: iStock

O criador e a caricatura

 

— Igor, Igor, venha cá. Olhe só, acabei de criar o homem perfeito.

— Sim, mestre.

— O que é que você achou? Não é o máximo? Bonito, inteligente – fala mais de 6 línguas, forte, esportista, simpático, articulado, orador brilhante, politicamente correto, charmoso, bem-dotado, loiro, olhos azuis, pele bronzeada, fiel, amigo, bom caráter, coração de ouro…

— Sim, mestre.

— Que foi? Não gostou, é?

— Não, mestre, não é que eu não tenha gostado, mas…

— Anda logo, desembucha, criatura.

— Honestamente? Posso dizer assim… na lata?

— Vai, fala de uma vez e acaba com essa angústia.

— Sabe, mestre, eu achei sinceramente uma ideia genial. Digno de seu talento e brilhantismo. Mas um homem tão forte, belo e com tantas qualidades nem precisa falar nada. E digo mais: se falar pode até estragar. O mestre sabe como é a natureza, principalmente a natureza morta. Logo ele vai estar fazendo sucesso nas rodas sociais, nos sarais, vai começar a ser convidado para padrinho de baile de debutante, para comentar jogos da Copa do Mundo, fazer programa infantil, ser jurado em concursos de miss… Não dou um ano e ele vai começar a falar mal do mestre, vai querer negar sua paternidade, vai dizer que não precisa dos seus conselhos, de seu carinho, de sua semanada, vai querer pedir salário, 13º, férias remuneradas…

— Será mesmo? Um filho não faria isso com seu próprio pai.

— Mestre, numa boa, filho o cacete. O senhor juntou um monte de pedaços de cadáveres com superbonder e agora quer chamar de filho? Ora, tenha santa paciência. Me dá até dor na corcunda, só de ouvir falar.

— Tá bom, tá bom, você me convenceu. Afinal, como se diz por aí, o silêncio é de ouro. Então, corta a língua do homem.

#######

— E então, querida baronesa? O que achastes?

— Maravilhoso, estimado esposo. Realmente maravilhoso. Apenas creio que você o concebeu muito bondoso e correto, dono de uma honestidade que chega a irritar. Com certeza ele vai se sentir deslocado, já que será o único na espécie humana a possuir tais características. Além disso, ele é muito ingênuo. E o prezado barão sabe como são as pessoas, principalmente as vivas. Vão abusar do infeliz, se aproveitar de sua bondade. O pobrezinho será feito de gato e sapato por todos. Vai sofrer muito, tadinho.

— Tens razão. Uma pequena falha de caráter irá deixá-lo mais real, mais humano. Além do mais, nunca se soube de ninguém que tenha morrido de desonestidade, prevaricação ou de mau uso de verbas públicas. Então, substituição: sai servil e entra ser vil.

#######

— Vejo que o nobre colega, conde de Stupidstein, torceu seu eminente nariz diante de tão inusitado feito científico.

— Não há dúvidas, ilustre barão, de que se trata de uma obra de inegável pujança estética e extremo vigor criativo. Mas como seu particular amigo, obrigo-me a alertá-lo para um ponto que me parece fundamental: a beleza excessiva em subalternos do sexo masculino é como criar cobras venenosas dentro de nossos próprios travesseiros. É fazer ouvidos moucos a natureza das mulheres. E sabe como são as mulheres, principalmente as nossas. O insigne barão não preza a fidelidade de sua generosa esposa?

— Sim, claro. Só não entendi o "generosa".

— Apenas um elogio, meu caro, com todo respeito. Mas como eu ia dizendo, se o barão não abre mão da fidelidade de sua seriíssima esposa, para que então colocá-la prova?

— É, em nome do meu casamento, da minha felicidade e de minha testa inexpugnável, meu homem perfeito vai levar uma trombada de caminhão.

#######

— Meu filho.

— Sim, padre.

— Estou profundamente lisonjeado e orgulhoso de possuir entre meus fiéis um membro tão inteligente e criativo no seio de nossa comunidade. É verdadeiramente inspirador e motivo de alegria para todos nós. Mas permita a este velho e antiquado servidor de Deus oferecer humildemente uma insignificante sugestão à tão elevada e fausta figura? Afinal, quem sou eu diante de tão garbosa e excelsa personalidade da ciência?

— Que isso, padre? Pode falar o que o senhor quiser.

— Meu filho, na minha modesta opinião, a inteligência em um ser tão desprovido de qualidades pode ser verdadeiramente desastroso. A consciência de sua condição irá levá-lo inexoravelmente à depressão profunda de onde dificilmente conseguirá sair. Sabe como são as criaturas de Deus, mesmo as mortas nunca estão satisfeitas com o que possuem. Aliás, as mortas são as mais insatisfeitas de todas. Ouça meu conselho  e faça uma caridade a este pobre diabo: destitua-o de inteligência e estará fazendo mais uma pessoa feliz no mundo.

— É… faz sentido… Igor, instale uma TV no quarto da criatura.

— Mas mestre…

— Anda, faça logo o que estou mandando.

#######

— Quem é o senhor?

— Sou Mario.

— Que Mário?

— Mário, aquele que… quer dizer, Mário o encanador. Estou consertando a pia da sua cozinha.

— Ah, que bom. Por favor, siga-me até meu laboratório.

— Se o senhor está mandando…

— E então, o que é que você acha desta minha criação?

— Eu?

— É, o senhor mesmo.

— Sei não, doutor.

— Pode falar.

— Sei lá, eu fico meio sem jeito, afinal de contas o senhor é um cientista famoso…

— Não, não se incomode, pode falar.

— Mas é uma situação muito delicada.

— Delicada nada, somos dois adultos.

— Mas o senhor sabe como são as opiniões, principalmente as alheias. Pode ser que o senhor se aborreça…

— Não existe a menor possibilidade.

— Mas eu sou apenas um encanador, como eu vou opinar sobre um feito tão extraordinário da ciência?

— Ora, ora. Pois é justamente isto que eu quero: a opinião do povo.

— É, mas o senhor é uma sumidade.

— Imagine, eu não tenho essas frescuras.

— É necessário mesmo que eu fale?

— Faço questã!

— Então tá. Já que o senhor insiste. Achei…

— …Sim…

— …achei…

— …ahã …

— …simpático.

— O quê? Ponha-se daqui para fora! Seu indecente, invejoso, mesquinho, ridículo. Não pode ver um trabalho brilhante que logo vem botando defeito. Ora, onde já se viu tamanha petulância deste sujeitinho! Proletário!

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante e palpiteiro digital. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Escola Nômade para Mentes Criativas. É colaborador também do site ProXXIma, tem 8 livros publicados e é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!