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A remota possibilidade de você estar errado

Henrique Szklo

17/04/2018 04h15

Crédito: iStock

Como o título atesta, neste artigo falarei da pequena, mínima e inexpressiva nanopossibilidade de que você possa eventualmente estar ligeiramente equivocado sobre qualquer assunto, mas, principalmente sobre seu negócio. E, acredite, vou entender perfeitamente o seu desconforto, pois, como você, também erro muito pouco, quase nada.

E me obrigo a tocar neste vespeiro flamejante, porque ele é intrinsecamente relacionado à dificuldade que temos todos de nos confrontarmos com as mudanças. As mudanças que são tão fundamentais e imprescindíveis na retórica, mas que, na prática, são mais odiadas do que criança em restaurante chique. Todo mundo fala em mudança, todo mundo exige mudança, todo mundo reconhece a necessidade de mudança, mas vai mexer em time que está ganhando para você ver o que te acontece.

E para mudar, não tem jeito, é preciso desenvolver a capacidade e o costume de se questionar. No mundo de hoje, mais do que nunca, questionar é viver.

As pessoas e as empresas vão se aprimorando de tal forma com o tempo que acabam por acreditar que são a quintessência da eficiência, os bastiões da qualidade e os símbolos máximos da modernidade. E o questionamento a esta autoestima delirante geralmente é encarado como uma ofensa grave e imperdoável, fruto da inveja, de gente frustrada ou de urubus que só vêem o lado ruim das coisas, pessimistas vocacionais, enfim, coisa de gente chata. Pegue suas coisas e saia já daqui!

Agora vou dizer uma grande novidade que vai mudar sua vida: não há evolução sem questionamento. Juro. Se arrume na cadeira que tem mais: tudo o que sobe, desce. Sem vice-versa.

Mas quem gosta de ser questionado? Ninguém. Quem gosta de quebrar? Ninguém. Então, já que você vai se aborrecer de qualquer jeito, relaxa e começa a se acostumar que a vida é assim mesmo.

Arrume um jeito de se controlar, de aceitar as opiniões diversas, vai fazer terapia, vai praticar uma arte marcial para dispender suas energias, toma maracujina. Mas se o problema não for se questionar e sim as mudanças propriamente ditas, bota uma fralda geriátrica, sei lá, mas arrume um jeito de lidar com elas. Acredite, vai ser melhor pra você.

Questionar a nós mesmos dói muito, não é pouco não. Principalmente quando nos damos conta de que estamos errados ou que não estamos tão certos quanto pensávamos. E é por isso que a maioria prefere arrumar desculpas para manter suas crenças do que se impor algum tipo de desafio. Preferimos utilizar a criatividade para justificar a nossa falta de criatividade.

E o pior ainda estar por vir. O questionamento de seus dogmas e certezas deve ser constante e ininterrupto. É como frequentar uma academia. Enquanto quiser que o exercício faça efeito, terá de continuar na atividade. Não adianta se questionar uma vez e acabou. Precisamos ser despojados a ponto de nunca acreditar que atingimos o máximo, a perfeição. A zona de conforto é tinhosa, ardilosa, cheia de truques para nos seduzir e imobilizar. Ela trabalha em várias frentes: no ego, deixando com que nos consideremos acima de questionamento; na preguiça, fazendo com que consideremos que ainda é cedo para se preocupar; nos desafios pessoais, fazendo com que não nos preocupemos com o negócio e passemos a buscar outros interesses; no conformismo, quando nos damos conta de que não precisamos mais do que temos, que atingimos o ideal e não faz sentido lutar por nada além disso, quer dizer, aquela sensação aconchegante de “missão cumprida”. Isso tudo não passa de armadilhas que a zona de conforto bota no meio do caminho pra você colocar o seu pezinho.

Amigo leitor, ninguém sabe tudo. Ou seria melhor dizer: ninguém sabe nada. Precisamos o tempo todo de referências, precisamos nos informar, precisamos ouvir as pessoas que entendem do riscado. Podemos ser os maiores especialistas em uma matéria, sempre haverá novas visões, novas abordagens, novas informações. A  soberba e a vaidade já derrubaram muita gente. Eu sei que você é fodão, que não tem pra ninguém, mas não se esqueça que existem milhares, milhões de fodões no mundo. Você é só mais um. Então, para se diferenciar, seja um fodão consciente, esclarecido, questionador. Apenas desça do olimpo e recolha seu rabo de pavão de vez em quando e reconheça a falhabilidade do ser humano, a possibilidade remota de você estar errado. Se até Donald Trump errou, você tem todo o direito de algumas escorregadas. Só os fracos não se permitem mudar de ideia.

Outra medida importante é a eliminação dos puxa-sacos. Eu sei que é gostoso sentir as pessoas usando nosso saco como base de bungee jump, mas, por favor, esses parasitas não merecem seu respeito, que dirá seu saco. Se eles puxam, puxam só para baixo. Você precisa de gente que te jogue pra cima e estas pessoas são aquelas que pensam e que não têm medo de perder o emprego por discordarem do chefe. Sim, estas pessoas existem. Talvez você não trabalhe com nenhuma porque mandou todas embora, mas, acredite, sem elas o seu negócio vai pro brejo, cedo ou tarde. O puxa-saco já diria neste momento que o brejo não é um lugar tão ruim assim… Resumindo, estar rodeado de pessoas que pensam do mesmo jeito que você e não geram questionamentos fará você morrer lentamente, sem perceber.

Consulte sempre um advogado, principalmente o advogado do diabo. Pra quem não sabe, esta expressão está relacionada a um procedimento muito útil em todas as esferas criativas: a crítica implacável sobre suas próprias ideias, tentando destruí-las como se fossem obra de nosso maior desafeto. A intenção não é inviabilizar a ideia, ao contrário: é a maneira mais fácil encontrar alguma falha e corrigi-la antes que seja tarde. E tem mais: questionar-se não vai fazer necessariamente você mudar. Às vezes você se questiona e mantém suas crenças, ou seja, o questionamento serve também para confirmar e fortalecer aquilo que você acredita. Ao temer o questionamento você está, na verdade, assumindo que não tem muita certeza daquilo que prega. Quem está tranquilo e sereno se questiona sem maiores problemas, afinal o objetivo não é ter razão e sim atingir as metas desejadas.

Não se iluda: só o idiota tem certeza. E nada me fará mudar de opinião sobre isso.

Sobre o autor

Henrique Szklo exerceu durante 18 anos a profissão de publicitário na área de criação, como redator e diretor de criação. Hoje é estudioso da criatividade e do comportamento humano, escritor, professor, designer gráfico, palestrante, palpiteiro digital e troublemaker. Desenvolveu sua própria teoria, a NeuroCriatividade Subversiva, e seu próprio método, o Dezpertamento Criativo. É coordenador do curso de criatividade da Escola Panamericana de Arte e sócio da Chickenz Criatividade e Desbloqueio Criativo. Já teve colunas em publicações como Meio & Mensagem e Exame e um site de humor no UOL. Tem 8 livros publicados. É palestrante de sucesso com passagens pelas principais capitais do país. E é palmeirense.

Sobre o blog

Assuntos do momento observados com bom humor pela ótica da criatividade e do comportamento humano. Sempre com um viés provocador e fugindo do senso comum. E que São Magaiver nos proteja!

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